O livro: suporte de poder, empoderamento e medo
- Jussara Prates

- 23 de abr. de 2025
- 6 min de leitura
Atualizado: há 4 dias
Livros e censura na história: por que a leitura provoca medo?

Os livros nunca foram apenas objetos de papel.
Ao longo da história, eles carregaram ideias, memórias, perguntas, denúncias, afetos, pensamentos e formas de compreender o mundo. Por isso, em diferentes períodos, os livros foram preservados, celebrados, proibidos, queimados, escondidos e perseguidos.
O livro: suporte de poder, empoderamento e medo
Quem controla o que pode ser lido tenta controlar também o que pode ser pensado, lembrado, questionado e imaginado.
Essa é uma das razões pelas quais regimes autoritários, em diferentes contextos, voltaram seus olhos para a leitura, a escrita, a arte e a cultura. O medo dos livros nunca foi medo do papel. Foi medo das ideias.
A literatura como caminho para outras leituras da história
Boas provocações podem nos levar para direções inesperadas.
Um livro, uma conversa, um filme, uma carta, uma fotografia ou uma obra de arte podem abrir caminhos sinuosos, diferentes e ainda pouco percorridos. Esses elementos estimulam pesquisas, deslocam certezas e nos retiram da sombra de uma “grande história” mundial contada apenas por datas, guerras, líderes políticos e acontecimentos monumentais.
Em diferentes períodos, alguns fatos ganharam notoriedade por estarem relacionados a personagens poderosos, líderes políticos, religiosos ou eventos que marcaram uma geração. No entanto, a história também se constrói nos detalhes do cotidiano, nos silêncios, nas perdas, nos gestos de sobrevivência e nas formas de resistência simbólica.
Nesse sentido, os períodos de guerra, especialmente a Segunda Guerra Mundial, exigem olhares múltiplos. Não apenas sobre batalhas, tratados e governos, mas sobre vida cotidiana, medo, deslocamentos, educação, cultura, produção artística, redes comunitárias, alimentação, violência, censura e sobrevivência.
A pergunta permanece necessária:
como foi viver naquele contexto?
A resposta nunca é única. Depende de quem se era, onde se vivia, a qual comunidade se pertencia, qual era a condição social, a origem étnica, a idade, o gênero e o território.
Todo processo histórico é vivido e posteriormente estudado sob diferentes perspectivas. E o contexto da Segunda Guerra Mundial foi além da complexidade: foi marcado por tragédias humanas profundas, deslocamentos forçados, exílio, violência, perseguição e destruição.
A queima de livros pelo nazismo e o controle da cultura
Entre os episódios mais simbólicos da relação entre livros, poder e medo está a queima de livros promovida pelo nazismo em 10 de maio de 1933. Estudantes universitários, influenciados pela propaganda nazista liderada por Joseph Goebbels, reuniram-se em diferentes cidades alemãs para queimar publicamente obras consideradas “não alemãs” ou contrárias à ideologia nazista.
Na Bebelplatz, em Berlim, esse ato tornou-se uma imagem emblemática da tentativa de controlar o pensamento, apagar vozes e destruir simbolicamente autores, ideias e interpretações de mundo.
Livros e censura na história: por que a leitura provoca medo?
Autores perseguidos e obras silenciadas
Foram perseguidas obras de escritores, intelectuais e pensadores como Stefan Zweig, Thomas Mann, Sigmund Freud, Erich Kästner, Erich Maria Remarque e Ricarda Huch, entre muitos outros.
A queima de livros pelo nazismo e o controle da cultura: poder, empoderamento e medo
A queima de livros não foi um gesto isolado. Ela fez parte de uma campanha mais ampla de censura, propaganda e controle cultural. O objetivo era eliminar formas de pensamento consideradas incompatíveis com o projeto político nazista.
Por isso, quando regimes autoritários atacam livros, bibliotecas, escolas, universidades, artistas, escritores e professores, não estão apenas atacando objetos ou profissões. Estão atacando possibilidades de pensamento.
O livro como memória, resistência e empoderamento
Em contextos de tragédia e fragilidade social, a arte e a literatura podem assumir papéis distintos.
Podem ser usadas como instrumentos de dominação, propaganda e submissão. Mas também podem atuar como formas de resistência, elaboração, memória, identidade e reconstrução subjetiva.
A literatura não impede a violência, mas pode ajudar a nomear o indizível.
Ela permite registrar experiências, preservar vozes, escavar traumas, construir sentidos e manter viva a ligação entre história, memória e humanidade.
Por isso, em tempos de guerra, exílio, censura, pandemia, enchentes e outras tragédias coletivas, a palavra escrita pode funcionar como abrigo simbólico. Um lugar onde a experiência humana encontra alguma forma de elaboração.
O livro, nesse sentido, é suporte de poder e também de empoderamento.
Poder, porque quem domina a circulação da leitura tenta controlar narrativas
.
Empoderamento, porque quem lê, escreve e interpreta amplia sua capacidade de compreender o mundo, reconhecer violências, preservar memórias e construir novas possibilidades.
Medo, porque toda palavra livre pode deslocar certezas.
Literatura, guerra e sobrevivência
No contexto da Segunda Guerra Mundial, a literatura assumiu múltiplas funções: denúncia, testemunho, exílio, elaboração do trauma, preservação da memória e resistência cultural.
Não se trata apenas de perguntar quais livros circularam durante a guerra, mas que função a leitura e a escrita tiveram para pessoas submetidas ao medo, à perseguição e à perda.
Livros, cartas, diários, poemas, relatos, testemunhos e obras literárias tornaram-se suportes para registrar experiências extremas e para manter alguma forma de vínculo com a cultura, a identidade e a própria humanidade.
Em tragédias humanas, a palavra pode ser uma forma de sobrevivência.
Não porque resolva a dor, mas porque impede que ela desapareça sem memória.
Por que falar sobre livros ainda é urgente?
Falar sobre livros, leitura e censura continua urgente porque a disputa pela memória permanece viva.
Ainda existem tentativas de controlar narrativas, restringir debates, deslegitimar a cultura, atacar a educação e reduzir a complexidade da história a versões únicas.
O livro continua sendo um suporte de poder porque organiza ideias, preserva registros e circula interpretações.
Mas também continua sendo suporte de empoderamento porque oferece linguagem para compreender o mundo, reconhecer injustiças, elaborar dores e imaginar futuros.
Quando um livro é queimado, censurado ou silenciado, algo maior está em jogo: a possibilidade de pensar.
E quando uma sociedade defende livros, bibliotecas, escolas, autores, leitores e espaços de reflexão, ela defende também o direito à memória, à crítica e à humanidade.
Escavação das Palavras: literatura, história e memória na escola
A partir dessas reflexões, desenvolvo em parceria com uma colega a oficina Escavação das Palavras: A literatura na História e na psique dos sobreviventes das tragédias humanas, voltada a estudantes dos anos finais do Ensino Fundamental e do Ensino Médio.
A proposta aproxima literatura, história, memória e subjetividade, criando um espaço de leitura, escuta, reflexão e diálogo sobre tragédias humanas, como guerras, perseguições, deslocamentos, pandemia, enchentes e outras experiências coletivas marcadas por perdas e reconstruções.
A oficina parte da ideia de que a literatura pode ajudar os estudantes a compreender não apenas os grandes acontecimentos históricos, mas também as marcas humanas, emocionais e sociais deixadas por esses eventos.
Mais do que trabalhar livros como conteúdo, a proposta convida os alunos a perceberem a palavra como vestígio, testemunho, abrigo, denúncia e possibilidade de elaboração.
Se sua escola deseja trabalhar literatura, história, memória e formação humana com estudantes dos anos finais do Ensino Fundamental ou do Ensino Médio, a oficina Escavação das Palavras pode ser uma proposta significativa para ampliar repertórios, desenvolver pensamento crítico e promover diálogo sobre humanidade, trauma, cultura e memória.
Entre em contato com a Sinapse Cultural para conhecer a proposta da oficina.
Leia também o artigo 1939 a 1945: Ecos de uma guerra que ainda ressoam.
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Conheça os projetos e publicações da Sinapse Cultural.
Saiba mais:
SAFAR, Giselle Hissa; ALMEIDA, Marcelina das Graças de. Design em tempos de escassez: o impacto da Segunda Guerra Mundial sobre os produtos do cotidiano. Caderno aTempo, v. 4, p. 123-156, 2019. Disponível em: https://editora.uemg.br/images/livros-pdf/catalogo-2020/Caderno_aTempo/2020_Caderno_aTempo_vol4_cap7.pdf. Acesso em: 17 maio 2026.
BALBINO, Jéfferson. Um novo olhar sobre a Segunda Guerra Mundial. Revista Tempo Amazônico, v. 3, n. 2, p. 153-166, jan./jun. 2016. Disponível em: https://www.pr.anpuh.org/resources/download/1506091117_ARQUIVO_OK09-UmnovoolharsobreaSegundaGuerraMundial.pdf. Acesso em: 17 maio 2026.
LIMA, Érica Santos de. A leitura e sua contribuição social: reflexões. 2012. 14 f. Trabalho de Conclusão de Curso (Graduação em Letras) – Universidade Estadual da Paraíba, Guarabira, 2012. Disponível em: https://dspace.bc.uepb.edu.br/jspui/handle/123456789/1483. Acesso em: 17 maio 2026.
MAIMONE, Giovana Deliberali; OLIVEIRA, Nicole Bonassi de; SILVA, Natália Gabriel da; PALETTA, Francisco Carlos. Livro, leitor e leitura: agentes de transformação social. Informação@Profissões, Londrina, v. 10, n. 1, p. 1-18, 2021. DOI: 10.5433/2317-4390.2021v10n1p1. Disponível em: https://ojs.uel.br/revistas/uel/index.php/infoprof/article/view/43414. Acesso em: 17 maio 2026.
Jussara Prates Girardi é escritora, produtora cultural e especialista em gestão estratégica de projetos, patrimônio, cultura e educação. Atua no desenvolvimento de projetos culturais, materiais educativos e ações voltadas à valorização da memória, identidade e diversidade cultural brasileira.











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