Churrasco e Chimarrão: cultura, patrimônio e educação no Rio Grande do Sul
- Jussara Prates

- há 3 dias
- 4 min de leitura

No Rio Grande do Sul, poucos elementos traduzem com tanta força o sentido de pertencimento quanto o churrasco e o chimarrão.
Eles estão no cotidiano, nas reuniões familiares, nas rodas de conversa, nas escolas, nas músicas e nas memórias. Não são apenas hábitos, são formas de viver, de se relacionar e de transmitir cultura.
E não por acaso, o dia 24 de abril foi instituído oficialmente como o Dia do Churrasco e do Chimarrão, reconhecendo-os como símbolos do estado.
Mas o que faz dessas práticas algo tão potente? E por que elas são fundamentais também na educação?
A erva-mate: da tradição ancestral ao patrimônio cultural
A história do chimarrão começa muito antes da formação do Rio Grande do Sul.
Os povos indígenas guaranis já utilizavam a erva-mate (Ilex paraguariensis) como bebida ritualística e cotidiana. O consumo coletivo, o compartilhamento da cuia e o respeito ao tempo do outro são práticas que atravessaram séculos.
Esse saber tradicional foi incorporado, transformado e ressignificado ao longo da história.
Recentemente, o modo de fazer da erva-mate foi reconhecido como patrimônio cultural imaterial do Rio Grande do Sul pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico do Estado do Rio Grande do Sul.
Esse reconhecimento não se refere apenas ao produto final, mas ao conjunto de saberes envolvidos:
cultivo
colheita
secagem
preparo
consumo coletivo
Como apontam estudos sobre patrimônio imaterial, como os de Néstor García Canclini, o valor cultural está no processo, na prática social e na transmissão entre gerações.
O churrasco: entre o campo, o fogo e a identidade
O churrasco, por sua vez, nasce da relação entre o homem e o território.
Ligado à pecuária e à vida campeira, ele se desenvolve a partir do fogo de chão, da carne assada de forma simples e da convivência no campo.
Autores como Luís Augusto Fischer destacam que o churrasco, assim como outros elementos da cultura regional, constrói uma narrativa simbólica do gaúcho, associada à liberdade, à coletividade e à tradição.
Já estudos históricos sobre o pampa e o gaúcho, como os de Darcy Ribeiro, evidenciam que essas práticas são resultado de processos culturais complexos, que envolvem influências indígenas, ibéricas e africanas.
O churrasco não é apenas alimento.
É ritual.
É encontro.
É tempo compartilhado.
Cultura que se canta, se escreve e se vive
O chimarrão e o churrasco não estão apenas na prática cotidiana, estão também na arte.
Na música regional, aparecem em letras, melodias e narrativas que expressam o cotidiano do povo gaúcho.
A canção “Ilex Paraguariensis”, da banda Engenheiros do Hawaii, por exemplo, traz a erva-mate como símbolo cultural e identitário.
Na literatura e na poesia, autores regionalistas também retratam o universo do campo, do fogo e da roda de mate como elementos centrais da experiência cultural.
Porque no Rio Grande do Sul, cultura não é apenas estudada, ela é vivida.
Quando o cotidiano se torna símbolo oficial
O reconhecimento institucional desses elementos reforça sua importância.
A legislação estadual que institui o dia 24 de abril como data comemorativa do churrasco e do chimarrão não cria a tradição, mas a legitima.
Esse movimento é fundamental dentro das políticas culturais, pois reconhece práticas populares como patrimônio coletivo.
Como aponta Marilena Chaui, a cultura é um direito e sua valorização é essencial para a construção de cidadania.
Educação e cultura: por que isso importa?
Trazer o churrasco e o chimarrão para a educação é trabalhar dimensões fundamentais do desenvolvimento humano:
identidade
pertencimento
memória
convivência
diversidade cultural
Segundo Paulo Freire, o processo educativo deve partir da realidade do educando.
E o que pode ser mais potente do que trabalhar conteúdos que fazem parte do cotidiano dos alunos?
Quando a escola reconhece e valoriza a cultura local, ela fortalece o vínculo do estudante com o conhecimento.
Como trabalhar churrasco e chimarrão na prática pedagógica
Esses elementos podem ser explorados de forma interdisciplinar e significativa.
1. Projeto cultural
Tema: “Sabores e saberes do Rio Grande do Sul”
pesquisa sobre origem do churrasco e chimarrão
entrevistas com familiares
produção de textos e relatos
2. Roda de conversa
Simulação da roda de chimarrão:
debate sobre convivência e respeito
reflexão sobre tradição e identidade
3. Produção artística
desenhos e pinturas
criação de músicas ou poemas
dramatizações
4. Matemática e ciência
medidas e proporções no preparo
estudo da planta erva-mate
processos de transformação
5. História e cultura
formação do povo gaúcho
influências culturais
patrimônio imaterial
Coleção Culturar como ferramenta pedagógica
É nesse contexto que se insere a Coleção Culturar jogos educativos.
A proposta da coleção é transformar elementos da cultura brasileira em experiências de aprendizagem.
Ao trabalhar símbolos como o churrasco e o chimarrão, os jogos permitem que o aluno:
✔ aprenda de forma ativa
✔ reconheça sua identidade cultural
✔ conecte teoria e prática
A cultura deixa de ser apenas conteúdo e passa a ser vivência.
Cultura, memória e futuro
O que mantém viva uma tradição não é apenas o registro legal.
É a prática cotidiana.
É a transmissão entre gerações.
É o significado que atribuímos a ela.
Ensinar sobre o churrasco e o chimarrão é mais do que ensinar sobre hábitos.
É ensinar sobre quem somos.
O churrasco e o chimarrão são expressões profundas da cultura do Rio Grande do Sul.
Eles carregam história, valores, relações sociais e identidade.
Quando reconhecidos como patrimônio e levados para a educação, tornam-se instrumentos poderosos de formação humana.
E nesse processo, iniciativas como a Coleção Culturar ampliam as possibilidades, transformando cultura em experiência, aprendizagem e pertencimento.
Afinal, Cultura não é apenas aquilo que herdamos.
É aquilo que escolhemos manter vivo.
Jussara Prates











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