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Churrasco e Chimarrão: cultura, patrimônio e educação no Rio Grande do Sul



No Rio Grande do Sul, poucos elementos traduzem com tanta força o sentido de pertencimento quanto o churrasco e o chimarrão.

Eles estão no cotidiano, nas reuniões familiares, nas rodas de conversa, nas escolas, nas músicas e nas memórias. Não são apenas hábitos, são formas de viver, de se relacionar e de transmitir cultura.


E não por acaso, o dia 24 de abril foi instituído oficialmente como o Dia do Churrasco e do Chimarrão, reconhecendo-os como símbolos do estado.

Mas o que faz dessas práticas algo tão potente? E por que elas são fundamentais também na educação?


A erva-mate: da tradição ancestral ao patrimônio cultural


A história do chimarrão começa muito antes da formação do Rio Grande do Sul.

Os povos indígenas guaranis já utilizavam a erva-mate (Ilex paraguariensis) como bebida ritualística e cotidiana. O consumo coletivo, o compartilhamento da cuia e o respeito ao tempo do outro são práticas que atravessaram séculos.


Esse saber tradicional foi incorporado, transformado e ressignificado ao longo da história.

Recentemente, o modo de fazer da erva-mate foi reconhecido como patrimônio cultural imaterial do Rio Grande do Sul pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico do Estado do Rio Grande do Sul.

Esse reconhecimento não se refere apenas ao produto final, mas ao conjunto de saberes envolvidos:

  • cultivo

  • colheita

  • secagem

  • preparo

  • consumo coletivo

Como apontam estudos sobre patrimônio imaterial, como os de Néstor García Canclini, o valor cultural está no processo, na prática social e na transmissão entre gerações.


O churrasco: entre o campo, o fogo e a identidade


O churrasco, por sua vez, nasce da relação entre o homem e o território.

Ligado à pecuária e à vida campeira, ele se desenvolve a partir do fogo de chão, da carne assada de forma simples e da convivência no campo.


Autores como Luís Augusto Fischer destacam que o churrasco, assim como outros elementos da cultura regional, constrói uma narrativa simbólica do gaúcho, associada à liberdade, à coletividade e à tradição.


Já estudos históricos sobre o pampa e o gaúcho, como os de Darcy Ribeiro, evidenciam que essas práticas são resultado de processos culturais complexos, que envolvem influências indígenas, ibéricas e africanas.

O churrasco não é apenas alimento.

É ritual.

É encontro.

É tempo compartilhado.


Cultura que se canta, se escreve e se vive


O chimarrão e o churrasco não estão apenas na prática cotidiana, estão também na arte.

Na música regional, aparecem em letras, melodias e narrativas que expressam o cotidiano do povo gaúcho.


A canção “Ilex Paraguariensis”, da banda Engenheiros do Hawaii, por exemplo, traz a erva-mate como símbolo cultural e identitário.

Na literatura e na poesia, autores regionalistas também retratam o universo do campo, do fogo e da roda de mate como elementos centrais da experiência cultural.

Porque no Rio Grande do Sul, cultura não é apenas estudada, ela é vivida.


Quando o cotidiano se torna símbolo oficial


O reconhecimento institucional desses elementos reforça sua importância.

A legislação estadual que institui o dia 24 de abril como data comemorativa do churrasco e do chimarrão não cria a tradição, mas a legitima.


Esse movimento é fundamental dentro das políticas culturais, pois reconhece práticas populares como patrimônio coletivo.

Como aponta Marilena Chaui, a cultura é um direito e sua valorização é essencial para a construção de cidadania.


Educação e cultura: por que isso importa?


Trazer o churrasco e o chimarrão para a educação é trabalhar dimensões fundamentais do desenvolvimento humano:

  • identidade

  • pertencimento

  • memória

  • convivência

  • diversidade cultural


Segundo Paulo Freire, o processo educativo deve partir da realidade do educando.

E o que pode ser mais potente do que trabalhar conteúdos que fazem parte do cotidiano dos alunos?

Quando a escola reconhece e valoriza a cultura local, ela fortalece o vínculo do estudante com o conhecimento.


Como trabalhar churrasco e chimarrão na prática pedagógica


Esses elementos podem ser explorados de forma interdisciplinar e significativa.


1. Projeto cultural

Tema: “Sabores e saberes do Rio Grande do Sul”

  • pesquisa sobre origem do churrasco e chimarrão

  • entrevistas com familiares

  • produção de textos e relatos


2. Roda de conversa

Simulação da roda de chimarrão:

  • debate sobre convivência e respeito

  • reflexão sobre tradição e identidade


3. Produção artística

  • desenhos e pinturas

  • criação de músicas ou poemas

  • dramatizações


4. Matemática e ciência

  • medidas e proporções no preparo

  • estudo da planta erva-mate

  • processos de transformação


5. História e cultura

  • formação do povo gaúcho

  • influências culturais

  • patrimônio imaterial


Coleção Culturar como ferramenta pedagógica


É nesse contexto que se insere a Coleção Culturar jogos educativos.

A proposta da coleção é transformar elementos da cultura brasileira em experiências de aprendizagem.


Ao trabalhar símbolos como o churrasco e o chimarrão, os jogos permitem que o aluno:

✔ aprenda de forma ativa

✔ reconheça sua identidade cultural

✔ conecte teoria e prática

A cultura deixa de ser apenas conteúdo e passa a ser vivência.


Cultura, memória e futuro


O que mantém viva uma tradição não é apenas o registro legal.

É a prática cotidiana.

É a transmissão entre gerações.

É o significado que atribuímos a ela.

Ensinar sobre o churrasco e o chimarrão é mais do que ensinar sobre hábitos.

É ensinar sobre quem somos.


O churrasco e o chimarrão são expressões profundas da cultura do Rio Grande do Sul.

Eles carregam história, valores, relações sociais e identidade.

Quando reconhecidos como patrimônio e levados para a educação, tornam-se instrumentos poderosos de formação humana.


E nesse processo, iniciativas como a Coleção Culturar ampliam as possibilidades, transformando cultura em experiência, aprendizagem e pertencimento.


Afinal, Cultura não é apenas aquilo que herdamos.

É aquilo que escolhemos manter vivo.



Jussara Prates

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