A Guerra Farroupilha e a formação mítica da identidade gaúcha
- Jussara Prates

- 12 de set. de 2020
- 9 min de leitura
Atualizado: há 6 horas
A Guerra Farroupilha ocupa um lugar central na memória do Rio Grande do Sul. Todos os anos, especialmente no mês de setembro, o tema retorna às escolas, aos espaços culturais, aos meios de comunicação, aos acampamentos farroupilhas e às celebrações do tradicionalismo gaúcho.
Mas entre a história e a memória existe uma distância importante.

Alegoria, Sentido e Espírito da República Farroupilha (1926)
Hélios Seelinger
A Guerra Farroupilha foi um conflito complexo, atravessado por interesses econômicos, disputas políticas, projetos republicanos, tensões internas, escravidão, negociações de elite e construções simbólicas posteriores. Ao longo do tempo, porém, essa experiência histórica foi transformada em mito fundador da identidade gaúcha.
Por isso, estudar a Guerra Farroupilha exige mais do que repetir símbolos, datas e nomes consagrados. Exige compreender como uma guerra civil, vencida pelo Império, passou a ser celebrada como revolução heroica e como seus personagens foram convertidos em referências de bravura, liberdade e orgulho regional.
A pergunta que orienta este artigo é simples e necessária:
o que lembramos quando falamos da Guerra Farroupilha e o que escolhemos esquecer?

Guerra Farroupilha: guerra civil, revolta ou revolução?
A chamada Revolução Farroupilha, ou Guerra dos Farrapos, ocorreu entre 1835 e 1845, durante o período regencial e os primeiros anos do Segundo Reinado. O conflito teve como centro a então Província de São Pedro do Rio Grande do Sul e envolveu setores da elite estancieira, charqueadora, militar e política local em oposição ao governo imperial.
Embora o termo “revolução” tenha se consolidado na memória regional, muitos historiadores preferem tratar o episódio como guerra civil ou revolta provincial, justamente porque o movimento não produziu uma ruptura profunda nas estruturas sociais, econômicas e políticas.
A monarquia foi mantida. O Rio Grande do Sul retornou à condição de província brasileira. As hierarquias sociais permaneceram. A escravidão não foi abolida. As lideranças farroupilhas, em grande parte, foram anistiadas, reincorporadas ao sistema político e mantiveram prestígio, negócios, patentes e influência.
Por isso, mais do que perguntar se a Guerra Farroupilha foi ou não uma revolução, é preciso observar quem se beneficiou dela, quem lutou, quem morreu, quem foi esquecido e quem foi transformado em herói.

Charqueada no Rio Grande.
Aquarela sobre papel (24,4 x 40,4 cm) de Jean-Baptiste Debret. Domínio público, Museus Castro Maya.
Os interesses econômicos por trás da guerra
A Guerra Farroupilha não nasceu apenas de ideais abstratos de liberdade. Ela também se relaciona a interesses concretos de grupos ligados à economia pecuária, ao charque, ao comércio e ao poder político regional.
A produção de charque tinha enorme importância econômica para a província. Ao mesmo tempo, os produtores rio-grandenses reclamavam da concorrência do charque platino e das políticas fiscais do Império. Esse contexto contribuiu para a formação de um ambiente de insatisfação entre setores da elite local.
Isso não significa reduzir a guerra a uma única causa econômica. O conflito envolveu diferentes fases, lideranças, interesses e projetos. Mas ignorar a base econômica da revolta ajuda a alimentar uma leitura romantizada, como se a Guerra Farroupilha tivesse sido apenas uma luta pura por liberdade.
A história é mais complexa.
Havia discursos republicanos, disputas por autonomia, descontentamentos fiscais e projetos políticos distintos. Mas havia também defesa de privilégios, controle territorial, manutenção de poder e preservação de estruturas sociais excludentes.
As fases e tensões internas do movimento farroupilha
A Guerra Farroupilha não foi homogênea. Ao longo de dez anos, o movimento apresentou fases distintas e divergências entre suas lideranças.
Em um primeiro momento, a revolta expressava tensões entre setores provinciais e o governo imperial. Depois da vitória farroupilha no Arroio Seival, em 1836, Antônio de Souza Neto proclamou a República Rio-Grandense, dando ao movimento um caráter separatista e republicano.
Mais tarde, com o avanço da guerra, as divergências internas se tornaram mais evidentes. Havia lideranças com projetos políticos mais amplos, outras com interesses mais pragmáticos e setores preocupados sobretudo com ganhos pessoais, negociação de patentes, proteção de bens e reinserção no sistema imperial.
O artigo de Laura de Leão Dornelles, já citado no texto original, chama atenção para as tensões internas, reivindicações e ganhos reais do decênio revoltoso, mostrando que as disputas entre lideranças são essenciais para compreender a complexidade do movimento.
Essa leitura é importante porque rompe com a imagem de unidade absoluta. A memória tradicional costuma apresentar os farroupilhas como um bloco coeso, movido pelos mesmos valores e objetivos. A historiografia mostra outra coisa: havia disputas, contradições, negociações e interesses divergentes.

Escravo negro conduzindo tropas no Rio Grande.
Aquarela sobre papel de Jean-Baptiste Debret. Domínio público, Museus Castro Maya
Liberdade, igualdade e humanidade: o paradoxo da escravidão
Entre as maiores contradições da Guerra Farroupilha está a presença da escravidão.
Os farroupilhas lutavam sob o lema “Liberdade, Igualdade e Humanidade”, mas o movimento não rompeu com a ordem escravocrata. Pelo contrário: homens escravizados participaram do conflito, muitos com a promessa de liberdade, mas essa promessa não se concretizou de forma ampla e segura.
Os Lanceiros Negros tornaram-se um dos temas mais dolorosos e necessários desse debate. A participação de homens negros nas tropas farroupilhas expõe um ponto central: a guerra mobilizou corpos e esperanças de liberdade, mas a paz negociada não garantiu dignidade e reparação para todos.
O episódio de Cerro dos Porongos, ocorrido em 1844, permanece como uma das páginas mais controversas da Guerra Farroupilha. O massacre atingiu especialmente os Lanceiros Negros e se tornou símbolo das ambiguidades do movimento.
Ao discutir as cláusulas da pacificação, o texto original lembra que grande parte dos benefícios da Paz de Ponche Verde favoreceu as lideranças farroupilhas, e não necessariamente aqueles que lutaram nas trincheiras.
É impossível ensinar a Guerra Farroupilha de forma crítica sem tratar da escravidão, dos Lanceiros Negros, das promessas de liberdade e das exclusões presentes na construção da memória regional.

Escravo puxando a pelota, embarcação típica do Rio Grande, feita em couro, para travessia de rios.
Aquarela sobre papel de Jean-Baptiste Debret. Domínio público, Museus Castro Maya
A Paz de Ponche Verde e os ganhos reais
A Guerra Farroupilha terminou em 1845, com a chamada Paz de Ponche Verde. O acordo envolveu anistia, negociação de dívidas, manutenção de patentes e reintegração de lideranças farroupilhas ao Império.
É justamente nesse ponto que a leitura crítica se torna necessária.
Se a guerra terminou com a reintegração da província ao Império, com preservação de muitas posições das lideranças rebeldes e sem ruptura social profunda, que tipo de vitória se celebra?
A memória regional construiu a ideia de honra, resistência e bravura. Mas a análise histórica precisa observar os termos concretos da pacificação.
Quem recebeu benefícios?
Quem foi anistiado?
Quem retomou cargos e patentes?
Quem permaneceu excluído?
Quem desapareceu da narrativa oficial?
Essas perguntas ajudam a deslocar o olhar do heroísmo abstrato para a complexidade histórica.

Carga de Cavalaria.
Guilherme Litran, óleo sobre tela, 1893. Acervo do Museu Júlio de Castilhos.
Com o passar do tempo surgiram diversas construções históricas e poéticas sobre a guerra. “A história dos povos é rica em manipulações e criações de toda a espécie que fazem parte da política cultural de determinada época”. (Moacyr Flores). Mais tarde, a possibilidade de escrever sobre a revolta foi aberta pela emergência de novas gerações políticas ávidas por constituir um discurso que legitimasse suas posições, essa geração transformava a apropriação de um símbolo, antes renegado ao esquecimento, em um estandarte idealizando os “valorosos farroupilhas”.
Lembrando que é um equívoco pensar a guerra sob o aspecto “revolucionário”. Afinal, os farroupilhas não obtiveram sucesso o Brasil manteve-se uma monarquia e o Rio Grande do Sul voltou a condição de província brasileira. Além disso, não ocorreram de fato rupturas significativas no âmbito das estruturas políticas, econômicas e sociais, como é o esperado de uma revolução.
Da história ao mito: como se constrói a identidade gaúcha
O mito não nasce do nada. Ele se alimenta de experiências históricas, memórias selecionadas, símbolos, literatura, rituais, comemorações, discursos políticos e práticas culturais.
No caso do Rio Grande do Sul, a Guerra Farroupilha passou por um longo processo de reelaboração simbólica. Personagens históricos foram convertidos em heróis. A guerra civil passou a ser lembrada como revolução libertária. O gaúcho histórico foi reelaborado como figura mítica de coragem, honra, liberdade e autenticidade.
Jocelito Zalla e Carla Menegat analisam a genealogia desse mito e mostram como a memória da Revolução Farroupilha foi sendo construída e consolidada ao longo do tempo, passando do próprio episódio histórico à sua transformação em símbolo regional.
Essa construção não é neutra. Toda memória coletiva seleciona, valoriza e silencia aspectos do passado.
A memória farroupilha exaltou determinados personagens e valores. Ao mesmo tempo, deixou nas margens a presença negra, indígena, feminina, popular, imigrante e urbana na formação sociocultural do Rio Grande do Sul.

A batalha do Fanfa
Óleo sobre tela de Oscar Pereira da Silva,
Literatura, tradicionalismo e a invenção de uma tradição
A imagem do gaúcho como “monarca das coxilhas”, campeiro, livre, honrado e ligado ao pampa foi fortalecida pela literatura regionalista, pela cultura política, pelas comemorações cívicas e, posteriormente, pelo movimento tradicionalista.
Moacyr Flores, citado no texto original, observa que o mito do gaúcho não é simplesmente uma mentira, mas uma interpretação da realidade, construída a partir de referências históricas e reelaborada como tradição.
Essa distinção é importante. O problema não está em reconhecer a força cultural do tradicionalismo. O problema está em tratar uma representação específica como se ela fosse a totalidade da identidade sul-rio-grandense.
O Rio Grande do Sul não é formado apenas pelo pampa, pelo estancieiro, pelo cavalo, pela pilcha e pela guerra. Sua formação envolve povos indígenas, populações negras, comunidades quilombolas, mulheres, trabalhadores urbanos, imigrantes europeus, fronteiras culturais, religiosidades, culinárias, linguagens, festas, conflitos, migrações, cidades, campo e múltiplas tradições locais.
Quando uma narrativa única se apresenta como identidade total, ela produz pertencimento para alguns e apagamento para outros.

Acampamento Farroupilha, Porto Alegre
A Semana Farroupilha e o ensino de história
A Semana Farroupilha ocupa um papel central na cultura escolar e comunitária do Rio Grande do Sul. Ela pode ser uma oportunidade riquíssima para trabalhar história, memória, patrimônio, cultura e identidade.
Mas essa oportunidade só se realiza plenamente quando o tema é tratado para além da celebração.
Nas escolas, a Guerra Farroupilha pode ser trabalhada por meio de perguntas:
O que foi a Guerra Farroupilha?
Quem eram as lideranças farroupilhas?
Quais interesses estavam em disputa?
Qual foi o papel da escravidão no conflito?
Quem foram os Lanceiros Negros?
O que ocorreu em Cerro dos Porongos?
Como a guerra terminou?
Por que ela passou a ser celebrada como mito fundador?
Quais grupos aparecem e quais grupos desaparecem da memória tradicional?
A identidade gaúcha é única ou plural?
Essas perguntas ajudam estudantes a compreender que a história não é apenas uma sequência de datas e heróis. A história também é disputa de memória, interpretação, poder e pertencimento.

Por que estudar a Guerra Farroupilha hoje?
Estudar a Guerra Farroupilha hoje não significa negar a importância da cultura gaúcha. Significa qualificá-la.
Uma identidade cultural forte não precisa esconder suas contradições. Pelo contrário: torna-se mais madura quando reconhece suas complexidades, amplia seus sujeitos e permite novas perguntas.
O orgulho regional pode conviver com a crítica histórica.A tradição pode dialogar com a pesquisa.A memória pode ser celebrada sem apagar a violência.A escola pode valorizar a cultura local sem reproduzir mitos como verdades absolutas.
A Guerra Farroupilha segue relevante justamente porque permite discutir temas contemporâneos: identidade, memória, racismo, patrimônio, narrativa, pertencimento, política, cultura e educação.
Quando tratamos a história com profundidade, não diminuímos a cultura. Nós a fortalecemos.

Para além do mito: uma identidade gaúcha plural
A identidade gaúcha não precisa ser abandonada. Ela precisa ser ampliada.
O Rio Grande do Sul é um território de muitas culturas, muitas memórias e muitas histórias. A narrativa farroupilha é uma parte importante desse processo, mas não pode ser a única moldura de pertencimento.
É necessário reconhecer o pampa e a serra, o campo e a cidade, os povos originários e as populações negras, as imigrações e as fronteiras, o trabalho rural e urbano, o folclore e as práticas locais, os patrimônios materiais e imateriais, as diferentes formas de falar, celebrar, cozinhar, cantar, narrar e lembrar.
A formação da identidade gaúcha é mais rica quando deixa de ser um modelo único e passa a ser compreendida como mosaico cultural.
Ensinar a Guerra Farroupilha de forma crítica é uma forma de democratizar a memória.
A história precisa ser ensinada com responsabilidade
A Guerra Farroupilha não deve ser retirada das escolas, dos espaços culturais ou das celebrações comunitárias. Ela deve ser estudada com mais rigor, mais fontes, mais vozes e mais responsabilidade.
O papel da educação histórica não é destruir identidades. É oferecer instrumentos para compreendê-las.
Ao estudar a Guerra Farroupilha, podemos valorizar a cultura gaúcha sem apagar as contradições do passado. Podemos reconhecer a força simbólica do tradicionalismo sem reduzir o Rio Grande do Sul a uma única tradição. Podemos trabalhar pertencimento sem transformar mito em verdade absoluta.
Não podemos deixar às brumas do esquecimento os fatos históricos, o ensino crítico e a contribuição das diferentes culturas e expressões que formam o Rio Grande do Sul.
Afinal, uma cultura se fortalece quando tem coragem de olhar para sua própria história.
Quer trabalhar cultura gaúcha, identidade e história local com mais profundidade?
A Sinapse Cultural desenvolve materiais educativos, projetos culturais, conteúdos históricos, publicações e propostas formativas voltadas à valorização da cultura, da memória, do patrimônio e da diversidade.
Se sua escola, instituição, município ou projeto cultural deseja trabalhar Semana Farroupilha, identidade gaúcha, história local, educação patrimonial ou cultura brasileira com mais profundidade e responsabilidade, entre em contato.
A história pode ser uma ponte entre memória, pertencimento e pensamento crítico.
Jussara Prates Girardi é historiadora, escritora, produtora cultural e especialista em gestão estratégica de projetos, patrimônio, cultura e educação. Atua no desenvolvimento de projetos culturais, materiais educativos e ações voltadas à valorização da memória, identidade e diversidade cultural brasileira.
Saiba mais:
DORNELES, Laura de Leão. Guerra Farroupilha: considerações acerca das tensões internas, reivindicações e ganhos reais do decênio revoltoso. Revista Brasileira de História & Ciências Sociais, FURG.
FLORES, Moacyr. Gaúcho: história e mito. Porto Alegre: EST, 2007.
LEITMAN, Spencer. Raízes socioeconômicas da Guerra dos Farrapos. Rio de Janeiro: Graal, 1979.
LUVIZOTTO, Caroline Kraus. Cultura gaúcha e separatismo no Rio Grande do Sul. São Paulo: Cultura Acadêmica, 2009. Obra disponível pela SciELO Livros.
MACHADO DA SILVA, Juremir. História Regional da Infâmia. Porto Alegre: L&PM, 2011.
MIRANDA, Márcia Eckert. “A Revolução Farroupilha e a República Rio-Grandense: o arquivo, as coleções e os anais”. Revista Acervo, Arquivo Nacional, 2016.
ZALLA, Jocelito; MENEGAT, Carla. “História e memória da Revolução Farroupilha: breve genealogia do mito”. Revista Brasileira de História, 2011.
Fontes das Imagens:












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