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História das epidemias e os aprendizados para o presente

Atualizado: há 1 dia



História das epidemias com representação de vírus, sociedade, ciência, saúde pública e aprendizagem histórica

Quando ciência, memória e sociedade se encontram


A pandemia causada pela disseminação do coronavírus provocou insegurança, perdas humanas, impactos econômicos, sofrimento psicológico e mudanças profundas na vida cotidiana.


De repente, uma sociedade marcada pela tecnologia, pela velocidade da informação, pelo capital e pela ideia de progresso viu-se diante de algo microscópico, invisível e capaz de paralisar rotinas, deslocamentos, escolas, comércios, relações sociais e projetos de futuro.


À primeira vista, parecia inacreditável. Quase um roteiro de cinema.


Mas, quando olhamos para a história das epidemias, percebemos que a humanidade já enfrentou muitas crises semelhantes. O vírus era novo, mas a experiência social da doença, do medo, da desorganização, da busca por respostas e da necessidade de ação coletiva não era exatamente uma novidade.


A história pode nos ajudar porque mostra que epidemias não são apenas eventos biológicos. Elas também revelam desigualdades, fragilidades políticas, problemas de saneamento, limites da ciência em determinados contextos, comportamentos coletivos, circulação de pessoas, formas de comunicação e escolhas feitas pelas sociedades.


O que é um vírus e por que isso importa?


Muito se falou sobre vírus, contágio, incubação, isolamento, transmissão e prevenção durante a pandemia. Mesmo assim, nem todos compreendem com clareza o que é um vírus.


A palavra “vírus”, de origem latina, está associada à ideia de toxina ou fluido venenoso. Os vírus são organismos microscópicos, acelulares, ou seja, não possuem células. São parasitas intracelulares obrigatórios, pois dependem de células hospedeiras para se multiplicar.


Eles não infectam apenas seres humanos. Podem atingir animais, plantas, bactérias e diferentes formas de vida.


De forma simplificada, um vírus precisa entrar em uma célula, utilizar sua estrutura para replicar seu material genético e produzir novas partículas virais. Esse processo ajuda a explicar por que determinadas infecções se espalham rapidamente e por que medidas de prevenção, higiene e redução de contato podem ser importantes em certos contextos.


Compreender minimamente esses processos ajuda a sociedade a lidar melhor com informações, recomendações de saúde pública e decisões coletivas.


Epidemias, ambiente e circulação humana


Não é possível compreender epidemias apenas observando o microrganismo.


Também é preciso olhar para os ambientes, as condições de vida, a circulação de pessoas, a urbanização, o saneamento, a moradia, o acesso à saúde, os hábitos sociais, a comunicação e a velocidade dos deslocamentos populacionais.


Em um mundo globalizado, pessoas, mercadorias e microrganismos circulam com enorme rapidez. Isso aumenta a necessidade de vigilância, cooperação científica, políticas públicas e respostas coordenadas.


A natureza está em permanente adaptação. Vírus, bactérias, fungos e outros microrganismos também se modificam e encontram caminhos de sobrevivência.


Por isso, a história das epidemias não é apenas história da doença. É também história da relação entre seres humanos, ambiente, ciência, economia e sociedade.


A história das epidemias acompanha a humanidade


As epidemias acompanham a história humana desde tempos muito antigos.


Elas atravessaram impérios, cidades, guerras, rotas comerciais, migrações, portos, campos de batalha, comunidades rurais, centros urbanos e sociedades inteiras.


Ao longo do tempo, diferentes doenças provocaram medo, morte, mudanças sociais e avanços importantes nas áreas de higiene, vacinação, saneamento, epidemiologia, medicina e saúde pública.


A seguir, revisitamos algumas epidemias e doenças que marcaram a humanidade. O objetivo não é esgotar o tema, mas mostrar como a memória histórica pode ampliar nossa compreensão sobre o presente.


Peste Negra: medo, morte e transformação social

A Peste Negra atingiu duramente a Europa e a Ásia no século XIV, entre aproximadamente 1333 e 1351, e ficou marcada como uma das maiores catástrofes demográficas da história.


Causada pela bactéria Yersinia pestis, comum em roedores, a doença podia ser transmitida ao ser humano por pulgas de animais contaminados.


Seu impacto foi imenso. Além das mortes, a Peste Negra alterou relações de trabalho, abalou estruturas religiosas, modificou a vida urbana e produziu profundas marcas culturais.


Ao estudar esse episódio, percebemos que as epidemias não atingem apenas corpos. Elas atingem também imaginários, economias, crenças, relações sociais e modos de organizar a vida coletiva.


Guy de Chauliac fazendo uma investigação em um corpo com peste negra.

Guy de Chauliac fazendo uma investigação em um corpo com peste negra.



Cólera: água, saneamento e desigualdade


A cólera é conhecida desde a Antiguidade, mas ganhou dimensão global no século XIX. Sua primeira grande epidemia global teve início em 1817.


Causada pela bactéria Vibrio cholerae, a doença se espalha principalmente por meio de água ou alimentos contaminados.


A história da cólera mostra a importância do saneamento básico, do acesso à água potável, da higiene urbana e das condições de vida.


Também revela uma questão social: doenças transmitidas por água contaminada atingem com mais força populações em situação de vulnerabilidade, onde faltam infraestrutura, tratamento de esgoto e políticas públicas adequadas.


Imagem urbana, valo com esgoto a céu aberto.

Tuberculose: doença antiga e persistente


A tuberculose acompanha a humanidade há milhares de anos. Sinais da doença foram encontrados em esqueletos muito antigos.


O combate à tuberculose avançou especialmente após a identificação do bacilo de Koch, em 1882. Ainda assim, a doença continuou presente em diferentes partes do mundo, especialmente em contextos de pobreza, aglomeração e fragilidade no acesso à saúde.


A tuberculose nos lembra que algumas doenças não desaparecem apenas porque a ciência as conhece. É preciso garantir prevenção, diagnóstico, tratamento, moradia digna, alimentação adequada e políticas públicas continuadas.



Figura ilustrando o contágio da tuberculose

Varíola: vacina, ciência e erradicação

A varíola atormentou a humanidade por mais de três mil anos.


Transmitida de pessoa para pessoa, especialmente por vias respiratórias ou contato com secreções, causou milhões de mortes ao longo da história.


A descoberta da vacina, no final do século XVIII, transformou profundamente a relação da humanidade com a doença. A varíola tornou-se um dos maiores exemplos de como a vacinação, a ciência e a ação coordenada em saúde pública podem mudar o curso da história.


Estudar a varíola é estudar também a importância da confiança social na ciência.


Pessoa com marcas da varíola

Gripe Espanhola: pandemia, guerra e memória


A Gripe Espanhola, entre 1918 e 1919, ocorreu em um contexto marcado pelo fim da Primeira Guerra Mundial.


Apesar do nome, a doença atingiu vários países e provocou milhões de mortes no mundo todo.

Causada por um vírus Influenza, espalhava-se pelo ar, por gotículas respiratórias e contato próximo.


A Gripe Espanhola deixou marcas profundas na memória coletiva. Ela nos lembra que pandemias não acontecem em um vazio. Elas se relacionam com guerras, deslocamentos, pobreza, comunicação, censura, medo e capacidade de resposta das sociedades.


Cena de necrotério com centenas de corpos humanos, combatidos pela Gripe Espanhola

Tifo, guerras e condições sociais


O tifo está historicamente associado a contextos de guerra, miséria, campos de concentração, deslocamentos e condições precárias de higiene.


Causado por bactérias do gênero Rickettsia, pode ser transmitido por piolhos, pulgas ou carrapatos, conforme o tipo de doença.


Durante diferentes conflitos, exércitos e populações vulneráveis foram atingidos por epidemias de tifo.


Esse exemplo mostra como algumas doenças se espalham com mais força quando há desorganização social, fome, aglomeração e ausência de condições mínimas de higiene.


Imagem arte ilustrando o exército de Napoleão Bonaparte

Os exércitos de Napoleão Bonaparte foram atingidos pelo tifo epidêmico durante a Campanha da Rússia.


Febre amarela, sarampo, malária e AIDS


Outras doenças também marcaram profundamente a história.


A febre amarela, transmitida por mosquitos, provocou grandes epidemias na África e nas Américas.


O sarampo, altamente contagioso, foi uma das principais causas de mortalidade infantil antes da vacinação em larga escala.


A malária, causada por protozoários do gênero Plasmodium e transmitida por mosquitos do gênero Anopheles, segue sendo uma doença grave em várias regiões tropicais.


A AIDS, identificada no início da década de 1980, provocou perdas humanas, estigmas, avanços científicos, mobilizações sociais e importantes debates sobre saúde, preconceito, sexualidade, direitos e acesso ao tratamento.


Cada uma dessas doenças revela uma dimensão diferente da relação entre ciência, sociedade, política pública, desigualdade e comportamento humano.


Febre Amarela - 30 000 mortos (Etiópia) – 1960 a 1962 - O Flavivírus, que tem uma versão urbana e outra silvestre, já causou grandes epidemias na África e nas Américas. A vítima é picada pelo mosquito transmissor, que picou antes uma pessoa infectada com o vírus, pode ser tratada, mas também apresenta-se de forma mais grave, que podem levar à morte.


Imagem de mosquito transmissor da febre amarela


Sarampo - 6 milhões de mortos por ano – Até 1963 - Era uma das causas principais de mortalidade infantil até a descoberta da primeira vacina, em 1963. Com o passar dos anos, a vacina foi aperfeiçoada, e a doença foi erradicada em vários países, no Brasil o sarampo retornou nos últimos anos. Altamente contagioso, o sarampo é causado pelo vírus Morbillivirus, propagado por meio das secreções mucosas (como a saliva, por exemplo) de indivíduos doentes.


Corpo de jovem com manchas provocadas pelo Sarampo

Malária - 3 milhões de mortos por ano – Desde 1980 - Em 1880, foi descoberto o protozoário Plasmodium, que causa a doença. A OMS considera a malária a pior doença tropical e parasitária da atualidade, perdendo em gravidade apenas para a Aids. A contaminação ocorre pelo sangue, quando a vítima é picada pelo mosquito Anopheles contaminado com o protozoário da malária. O protozoário destrói as células do fígado e os glóbulos vermelhos e, em alguns casos, as artérias que levam o sangue até o cérebro.


Mapa Mundi com indicações em vermelho

AIDS - 22 milhões de mortos – Desde 1981 - A doença foi identificada em 1981, nos Estados Unidos, e desde então foi considerada uma epidemia pela Organização Mundial de Saúde. O vírus HIV é transmitido através do sangue, do esperma, da secreção vaginal e do leite materno. Destrói o sistema imunológico, deixando o organismo frágil a doenças causadas por outros vírus, bactérias, parasitas e células cancerígenas.


Figura humana indicando sintomas da AIDS


Coronavírus e a experiência da pandemia


O coronavírus trouxe à tona uma experiência coletiva de vulnerabilidade.


A doença causada pelo novo coronavírus foi inicialmente registrada em 2019 e se espalhou rapidamente por diferentes países, exigindo respostas sanitárias, sociais, científicas e políticas.


Durante a pandemia, a sociedade precisou lidar com recomendações de higiene, isolamento, distanciamento, vacinação, uso de máscaras, restrições de circulação, fechamento de escolas, perdas familiares, medo, desinformação e disputas sobre ciência.


Esse período mostrou que a comunicação pública, a confiança nas instituições, o investimento em pesquisa, o fortalecimento do sistema de saúde e a educação científica são fundamentais em momentos de crise.


O que a história das epidemias nos ensina?


A história das epidemias nos ensina que a humanidade costuma aprender, mas também costuma esquecer.


Muitas doenças poderiam ter impactos menores se houvesse investimentos adequados em saneamento, moradia, educação, pesquisa, inovação, saúde pública e comunicação responsável.

Epidemias custam caro. Custam vidas, empregos, vínculos, saúde mental, estabilidade econômica, memória familiar e futuro.


Por isso, é equivocado pensar que investimento social é gasto sem retorno. Em todas as épocas, quando uma epidemia se espalha, a conta chega para todos.


A prevenção é sempre mais inteligente do que a improvisação diante do caos.


Ciência, educação e responsabilidade coletiva


A ciência não elimina todos os riscos, mas amplia nossa capacidade de compreendê-los.


A educação não impede sozinha uma epidemia, mas ajuda as pessoas a interpretarem informações, evitarem boatos, compreenderem medidas de prevenção e cobrarem políticas públicas responsáveis.


A história não oferece respostas prontas, mas revela padrões, alertas e consequências.


Quando unimos ciência, educação e memória histórica, conseguimos olhar para as crises de modo mais crítico e menos ingênuo.


Aprendemos pouco com a história?


Diante de tantas experiências acumuladas, uma pergunta permanece:


aprendemos pouco com a história?


A resposta talvez seja incômoda.


Aprendemos quando investimos em ciência.

Aprendemos quando fortalecemos a saúde pública.

Aprendemos quando melhoramos saneamento e moradia.

Aprendemos quando valorizamos educação e pesquisa.

Aprendemos quando compreendemos que prevenção é uma forma de cuidado coletivo.


Mas esquecemos quando naturalizamos desigualdades, cortamos investimentos essenciais, desprezamos evidências científicas e tratamos crises sanitárias como acontecimentos isolados.


As epidemias mostram que ninguém vive completamente separado dos outros.


A saúde também é um fato social.



Casebres em meio ao esgoto


E se você é daqueles que acha que o Estado já gasta muito com as questões sociais, lamento informar: Em todas as épocas as epidemias custaram muito caro e a conta foi paga por todos.


Foi por essas questões que iniciei este texto dizendo que é inacreditável que a humanidade esteja, mais uma vez, em meio a mais uma epidemia.


É fato!

Aprendemos pouco com a história. Que pena!


História, ciência e formação humana


A Sinapse Cultural desenvolve conteúdos, cursos, oficinas, livros e projetos que aproximam educação, cultura, memória, ciência, patrimônio e formação humana.


Conheça nossos artigos, cursos e propostas para escolas, educadores, instituições e pessoas interessadas em compreender o mundo a partir da história, da cultura e do conhecimento.



Jussara Prates Girardi é escritora, produtora cultural e criadora da Sinapse Cultural. Licenciada em História e Biologia, especialista em educação, arquivos, patrimônio, diversidade cultural e sustentabilidade, com MBA em Gestão Estratégica de Projetos, atua no desenvolvimento de livros, cursos, oficinas, jogos educativos, materiais pedagógicos e projetos culturais voltados à educação, memória, cultura e formação humana.




Saiba mais:

https://coronavirus.saude.gov.br/sobre-a-doenca#transmissao

http://www.ufrgs.br/labvir/material/aula1bvet.pdf

Epidemiologia e medidas de prevenção do Dengue

Organização Mundial de Saúde (OMS) e Fundação Oswaldo Cruz

Epidemias. Rita de Cássia Barradas Barata

Conceitos epidemiológicos e as pandemias recentes: novos desafios. Suellen Silva Araújo Magalhães1, Carla Jorge Machado2.

http://www.scielo.br/pdf/cadsc/v22n1/1414-462X-cadsc-22-01-00109.pdf







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