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Churrasco e Chimarrão: cultura, patrimônio e educação no Rio Grande do Sul

Atualizado: há 2 dias


No Rio Grande do Sul, poucos elementos traduzem com tanta força o sentido de pertencimento quanto o churrasco e o chimarrão.


Eles estão nas reuniões familiares, nas rodas de conversa, nas escolas, nas músicas, nas memórias afetivas e nas formas de convivência. Mais do que hábitos alimentares, são práticas culturais que expressam identidade, território, sociabilidade e transmissão de saberes.


Churrasco e chimarrão na cultura do Rio Grande do Sul


Mas por que churrasco e chimarrão são tão importantes para a cultura gaúcha? E como esses elementos podem ser trabalhados na educação de forma crítica, afetiva e significativa?


No Estado, o dia 24 de abril marca oficialmente o Dia do Churrasco e do Chimarrão, data instituída pela Lei Estadual nº 11.929/2003, que reconhece o churrasco à gaúcha como prato típico e o chimarrão como bebida símbolo do Rio Grande do Sul.



Imagem composta de churrasco, chimarrão, pala de lã e livro

churrasco-chimarrao-cultura-rio-grande-do-sul-educacao.png



A erva-mate: saber ancestral, patrimônio e identidade


A história do chimarrão começa muito antes da formação política do Rio Grande do Sul.

A erva-mate, Ilex paraguariensis, já era conhecida e utilizada por povos indígenas, especialmente povos guarani, em práticas alimentares, rituais, medicinais e sociais. Ao longo do tempo, esse saber foi incorporado, transformado e ressignificado em diferentes contextos históricos.


O chimarrão não é apenas uma bebida. Ele envolve cultivo, colheita, preparo, utensílios, modos de servir, formas de partilha e regras de convivência.


Em 2023, o Sistema Cultural e Socioambiental da Erva-Mate Tradicional foi reconhecido pelo IPHAE como o primeiro patrimônio cultural imaterial do Rio Grande do Sul. O registro envolve o valor histórico-cultural da erva-mate, seu cultivo, circulação, comercialização e práticas tradicionais associadas.


Esse reconhecimento reforça uma ideia importante: patrimônio cultural não é apenas o objeto final. É também o processo, o saber, a prática social e a transmissão entre gerações.

Na escola, o chimarrão pode abrir caminhos para estudar povos originários, biodiversidade, plantas nativas, práticas culturais, patrimônio imaterial, história regional e convivência.


O churrasco: fogo, território e convivência


O churrasco também ocupa lugar central na cultura do Rio Grande do Sul.

Ligado à pecuária, à vida campeira e às formas de ocupação do território, o churrasco tornou-se um símbolo regional fortemente associado ao fogo, ao campo, à reunião coletiva e à partilha do alimento.


A legislação estadual define o churrasco à gaúcha como carne temperada com sal grosso e assada ao calor de brasas de madeira carbonizada ou in natura, em espetos ou grelha, sob controle manual.


Mas, para além da definição legal, o churrasco também pode ser compreendido como prática social.


Ele reúne pessoas, organiza tempos de encontro, marca comemorações, produz memórias e expressa relações de pertencimento. Em muitas famílias, não se trata apenas de comer, mas de participar de um ritual de convivência.


Na educação, isso permite ampliar a abordagem: o churrasco pode ser estudado como alimentação, história, cultura regional, sociabilidade, memória familiar, economia, território e identidade.


Quando o cotidiano se torna patrimônio cultural


Um dos pontos mais importantes deste tema é perceber que o patrimônio cultural não está distante da vida cotidiana.


Muitas vezes, aquilo que parece comum, preparar uma cuia de chimarrão, reunir a família em torno do fogo, contar histórias durante uma refeição, transmitir um modo de fazer — é justamente o que sustenta a memória cultural de um grupo.


A legislação que institui o churrasco e o chimarrão como símbolos do Rio Grande do Sul não cria a tradição. Ela reconhece oficialmente práticas já existentes e socialmente significativas.

Esse movimento é importante porque valoriza saberes populares, práticas alimentares, modos de convivência e formas de identidade coletiva.


Quando a escola trabalha esses temas, ajuda os estudantes a perceberem que cultura não é apenas algo distante ou folclorizado. Cultura é também aquilo que se vive, se prepara, se compartilha e se transmite.


Churrasco e chimarrão na educação


Trazer churrasco e chimarrão para a educação não significa apenas falar de tradição gaúcha.

Significa trabalhar cultura como linguagem, memória, história e experiência social.


A BNCC define aprendizagens essenciais para a Educação Básica e orienta o desenvolvimento de competências que envolvem repertório cultural, comunicação, argumentação, responsabilidade, empatia, cooperação e valorização da diversidade.


Além disso, a Lei nº 11.645/2008 torna obrigatório o estudo da história e cultura afro-brasileira e indígena nos estabelecimentos de Ensino Fundamental e Ensino Médio, o que reforça a importância de abordar a formação cultural brasileira de modo plural, crítico e contextualizado.


Nesse sentido, trabalhar churrasco e chimarrão pode ser uma oportunidade para discutir:

  • identidade cultural;

  • memória familiar;

  • história regional;

  • povos originários;

  • patrimônio imaterial;

  • alimentação e cultura;

  • território e paisagem;

  • diversidade cultural;

  • convivência e pertencimento.


Quando a escola reconhece a cultura presente no cotidiano dos estudantes, ela aproxima o conhecimento da vida.


Como trabalhar churrasco e chimarrão na prática pedagógica


Esses temas podem ser explorados de forma interdisciplinar, envolvendo História, Geografia, Ciências, Língua Portuguesa, Arte, Educação Patrimonial e Projetos de Vida.


Projeto cultural: sabores e saberes do Rio Grande do Sul


A turma pode desenvolver um projeto sobre alimentos, bebidas, rituais e práticas culturais do estado.


Atividades possíveis:

  • pesquisa sobre origem do chimarrão e do churrasco;

  • entrevistas com familiares;

  • relatos de memórias afetivas;

  • produção de textos, desenhos e cartazes;

  • organização de uma pequena exposição escolar;

  • criação de um caderno de receitas, histórias e memórias.


Roda de conversa sobre convivência


A roda de chimarrão pode ser trabalhada como símbolo de escuta, tempo compartilhado e respeito ao outro.

A atividade pode discutir:

  • convivência;

  • regras de partilha;

  • respeito aos mais velhos;

  • memória familiar;

  • formas de encontro;

  • diferenças entre hábitos culturais.


Produção artística e literária


Os estudantes podem criar:

  • poemas;

  • ilustrações;

  • relatos;

  • quadrinhos;

  • músicas;

  • dramatizações;

  • mapas afetivos;

  • pequenos textos sobre tradições familiares.


Ciências, ambiente e alimentação


A erva-mate permite trabalhar:

  • plantas nativas;

  • cultivo;

  • processos de secagem;

  • biodiversidade;

  • relação entre cultura e natureza;

  • alimentação tradicional;

  • modos de preparo.


História e patrimônio cultural


O churrasco e o chimarrão também podem ser abordados como patrimônio, permitindo discutir:

  • cultura imaterial;

  • história do Rio Grande do Sul;

  • formação do povo gaúcho;

  • influências indígenas, africanas e europeias;

  • tradições regionais;

  • memória coletiva.


Coleção Culturar: cultura brasileira em experiência de aprendizagem


É nesse contexto que a Coleção Culturar, da Sinapse Cultural, pode ser utilizada como ferramenta pedagógica.


A proposta da coleção é transformar elementos da cultura brasileira em experiências de aprendizagem lúdica, por meio de jogos educativos que trabalham temas como alimentação tradicional, música, folclore, diversidade cultural e pertencimento.


Ao abordar símbolos como churrasco, chimarrão, instrumentos, ritmos, personagens e alimentos presentes na cultura brasileira, os jogos permitem que os estudantes aprendam de forma ativa, associativa e afetiva.


Com a mediação do professor, o jogo deixa de ser apenas brincadeira e passa a ser ponto de partida para conversas, pesquisas, registros, produções textuais, atividades artísticas e projetos culturais.


A cultura deixa de ser apenas conteúdo.Ela se torna experiência.


Cultura, memória e futuro


O que mantém viva uma tradição não é apenas o registro legal.

É a prática cotidiana.É a transmissão entre gerações.É o significado que atribuímos a ela.É a forma como a escola, a família e a comunidade escolhem preservar, problematizar e reinventar seus saberes.


Ensinar sobre churrasco e chimarrão é mais do que ensinar sobre hábitos alimentares.

É abrir espaço para pensar identidade, território, história, convivência, diversidade e memória.

O churrasco e o chimarrão são expressões profundas da cultura do Rio Grande do Sul. Quando reconhecidos como patrimônio e trabalhados na educação, tornam-se instrumentos de formação humana.


E, nesse processo, iniciativas como a Coleção Culturar ampliam possibilidades, transformando cultura em aprendizagem, pertencimento e experiência lúdica.

Porque cultura não é apenas aquilo que herdamos.

É também aquilo que escolhemos manter vivo.


Conheça a Coleção Culturar


A Coleção Culturar, da Sinapse Cultural, reúne jogos educativos sobre cultura brasileira, folclore, música, alimentação tradicional e diversidade cultural.


Um material para escolas, professores, famílias e projetos educativos que desejam trabalhar cultura de forma lúdica, sensível e significativa.


Conheça a Coleção Culturar no site da Sinapse Cultural.




Jussara Prates Girardi é escritora, produtora cultural e especialista em gestão estratégica de projetos, patrimônio, cultura e educação. Criadora da Sinapse Cultural, desenvolve livros, jogos educativos, oficinas, cursos, materiais pedagógicos e projetos voltados à valorização da memória, da diversidade cultural e da formação humana.


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