Churrasco e Chimarrão: cultura, patrimônio e educação no Rio Grande do Sul
- Jussara Prates

- 24 de abr.
- 5 min de leitura
Atualizado: há 2 dias
No Rio Grande do Sul, poucos elementos traduzem com tanta força o sentido de pertencimento quanto o churrasco e o chimarrão.
Eles estão nas reuniões familiares, nas rodas de conversa, nas escolas, nas músicas, nas memórias afetivas e nas formas de convivência. Mais do que hábitos alimentares, são práticas culturais que expressam identidade, território, sociabilidade e transmissão de saberes.
Churrasco e chimarrão na cultura do Rio Grande do Sul
Mas por que churrasco e chimarrão são tão importantes para a cultura gaúcha? E como esses elementos podem ser trabalhados na educação de forma crítica, afetiva e significativa?
No Estado, o dia 24 de abril marca oficialmente o Dia do Churrasco e do Chimarrão, data instituída pela Lei Estadual nº 11.929/2003, que reconhece o churrasco à gaúcha como prato típico e o chimarrão como bebida símbolo do Rio Grande do Sul.

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A erva-mate: saber ancestral, patrimônio e identidade
A história do chimarrão começa muito antes da formação política do Rio Grande do Sul.
A erva-mate, Ilex paraguariensis, já era conhecida e utilizada por povos indígenas, especialmente povos guarani, em práticas alimentares, rituais, medicinais e sociais. Ao longo do tempo, esse saber foi incorporado, transformado e ressignificado em diferentes contextos históricos.
O chimarrão não é apenas uma bebida. Ele envolve cultivo, colheita, preparo, utensílios, modos de servir, formas de partilha e regras de convivência.
Em 2023, o Sistema Cultural e Socioambiental da Erva-Mate Tradicional foi reconhecido pelo IPHAE como o primeiro patrimônio cultural imaterial do Rio Grande do Sul. O registro envolve o valor histórico-cultural da erva-mate, seu cultivo, circulação, comercialização e práticas tradicionais associadas.
Esse reconhecimento reforça uma ideia importante: patrimônio cultural não é apenas o objeto final. É também o processo, o saber, a prática social e a transmissão entre gerações.
Na escola, o chimarrão pode abrir caminhos para estudar povos originários, biodiversidade, plantas nativas, práticas culturais, patrimônio imaterial, história regional e convivência.
O churrasco: fogo, território e convivência
O churrasco também ocupa lugar central na cultura do Rio Grande do Sul.
Ligado à pecuária, à vida campeira e às formas de ocupação do território, o churrasco tornou-se um símbolo regional fortemente associado ao fogo, ao campo, à reunião coletiva e à partilha do alimento.
A legislação estadual define o churrasco à gaúcha como carne temperada com sal grosso e assada ao calor de brasas de madeira carbonizada ou in natura, em espetos ou grelha, sob controle manual.
Mas, para além da definição legal, o churrasco também pode ser compreendido como prática social.
Ele reúne pessoas, organiza tempos de encontro, marca comemorações, produz memórias e expressa relações de pertencimento. Em muitas famílias, não se trata apenas de comer, mas de participar de um ritual de convivência.
Na educação, isso permite ampliar a abordagem: o churrasco pode ser estudado como alimentação, história, cultura regional, sociabilidade, memória familiar, economia, território e identidade.
Quando o cotidiano se torna patrimônio cultural
Um dos pontos mais importantes deste tema é perceber que o patrimônio cultural não está distante da vida cotidiana.
Muitas vezes, aquilo que parece comum, preparar uma cuia de chimarrão, reunir a família em torno do fogo, contar histórias durante uma refeição, transmitir um modo de fazer — é justamente o que sustenta a memória cultural de um grupo.
A legislação que institui o churrasco e o chimarrão como símbolos do Rio Grande do Sul não cria a tradição. Ela reconhece oficialmente práticas já existentes e socialmente significativas.
Esse movimento é importante porque valoriza saberes populares, práticas alimentares, modos de convivência e formas de identidade coletiva.
Quando a escola trabalha esses temas, ajuda os estudantes a perceberem que cultura não é apenas algo distante ou folclorizado. Cultura é também aquilo que se vive, se prepara, se compartilha e se transmite.
Churrasco e chimarrão na educação
Trazer churrasco e chimarrão para a educação não significa apenas falar de tradição gaúcha.
Significa trabalhar cultura como linguagem, memória, história e experiência social.
A BNCC define aprendizagens essenciais para a Educação Básica e orienta o desenvolvimento de competências que envolvem repertório cultural, comunicação, argumentação, responsabilidade, empatia, cooperação e valorização da diversidade.
Além disso, a Lei nº 11.645/2008 torna obrigatório o estudo da história e cultura afro-brasileira e indígena nos estabelecimentos de Ensino Fundamental e Ensino Médio, o que reforça a importância de abordar a formação cultural brasileira de modo plural, crítico e contextualizado.
Nesse sentido, trabalhar churrasco e chimarrão pode ser uma oportunidade para discutir:
identidade cultural;
memória familiar;
história regional;
povos originários;
patrimônio imaterial;
alimentação e cultura;
território e paisagem;
diversidade cultural;
convivência e pertencimento.
Quando a escola reconhece a cultura presente no cotidiano dos estudantes, ela aproxima o conhecimento da vida.
Como trabalhar churrasco e chimarrão na prática pedagógica
Esses temas podem ser explorados de forma interdisciplinar, envolvendo História, Geografia, Ciências, Língua Portuguesa, Arte, Educação Patrimonial e Projetos de Vida.
Projeto cultural: sabores e saberes do Rio Grande do Sul
A turma pode desenvolver um projeto sobre alimentos, bebidas, rituais e práticas culturais do estado.
Atividades possíveis:
pesquisa sobre origem do chimarrão e do churrasco;
entrevistas com familiares;
relatos de memórias afetivas;
produção de textos, desenhos e cartazes;
organização de uma pequena exposição escolar;
criação de um caderno de receitas, histórias e memórias.
Roda de conversa sobre convivência
A roda de chimarrão pode ser trabalhada como símbolo de escuta, tempo compartilhado e respeito ao outro.
A atividade pode discutir:
convivência;
regras de partilha;
respeito aos mais velhos;
memória familiar;
formas de encontro;
diferenças entre hábitos culturais.
Produção artística e literária
Os estudantes podem criar:
poemas;
ilustrações;
relatos;
quadrinhos;
músicas;
dramatizações;
mapas afetivos;
pequenos textos sobre tradições familiares.
Ciências, ambiente e alimentação
A erva-mate permite trabalhar:
plantas nativas;
cultivo;
processos de secagem;
biodiversidade;
relação entre cultura e natureza;
alimentação tradicional;
modos de preparo.
História e patrimônio cultural
O churrasco e o chimarrão também podem ser abordados como patrimônio, permitindo discutir:
cultura imaterial;
história do Rio Grande do Sul;
formação do povo gaúcho;
influências indígenas, africanas e europeias;
tradições regionais;
memória coletiva.
Coleção Culturar: cultura brasileira em experiência de aprendizagem
É nesse contexto que a Coleção Culturar, da Sinapse Cultural, pode ser utilizada como ferramenta pedagógica.
A proposta da coleção é transformar elementos da cultura brasileira em experiências de aprendizagem lúdica, por meio de jogos educativos que trabalham temas como alimentação tradicional, música, folclore, diversidade cultural e pertencimento.
Ao abordar símbolos como churrasco, chimarrão, instrumentos, ritmos, personagens e alimentos presentes na cultura brasileira, os jogos permitem que os estudantes aprendam de forma ativa, associativa e afetiva.
Com a mediação do professor, o jogo deixa de ser apenas brincadeira e passa a ser ponto de partida para conversas, pesquisas, registros, produções textuais, atividades artísticas e projetos culturais.
A cultura deixa de ser apenas conteúdo.Ela se torna experiência.
Cultura, memória e futuro
O que mantém viva uma tradição não é apenas o registro legal.
É a prática cotidiana.É a transmissão entre gerações.É o significado que atribuímos a ela.É a forma como a escola, a família e a comunidade escolhem preservar, problematizar e reinventar seus saberes.
Ensinar sobre churrasco e chimarrão é mais do que ensinar sobre hábitos alimentares.
É abrir espaço para pensar identidade, território, história, convivência, diversidade e memória.
O churrasco e o chimarrão são expressões profundas da cultura do Rio Grande do Sul. Quando reconhecidos como patrimônio e trabalhados na educação, tornam-se instrumentos de formação humana.
E, nesse processo, iniciativas como a Coleção Culturar ampliam possibilidades, transformando cultura em aprendizagem, pertencimento e experiência lúdica.
Porque cultura não é apenas aquilo que herdamos.
É também aquilo que escolhemos manter vivo.
Conheça a Coleção Culturar
A Coleção Culturar, da Sinapse Cultural, reúne jogos educativos sobre cultura brasileira, folclore, música, alimentação tradicional e diversidade cultural.
Um material para escolas, professores, famílias e projetos educativos que desejam trabalhar cultura de forma lúdica, sensível e significativa.
Conheça a Coleção Culturar no site da Sinapse Cultural.
Jussara Prates Girardi é escritora, produtora cultural e especialista em gestão estratégica de projetos, patrimônio, cultura e educação. Criadora da Sinapse Cultural, desenvolve livros, jogos educativos, oficinas, cursos, materiais pedagógicos e projetos voltados à valorização da memória, da diversidade cultural e da formação humana.











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