A Gestão de Projetos, Trabalho e Empreendedorismo: mas afinal, o que a Educação tem a ver com isso?
- Jussara Prates

- 23 de dez. de 2020
- 4 min de leitura
Atualizado: há 3 dias
Neste período de pandemia, afloraram questões importantes sobre as relações de trabalho e o trabalho no Brasil. Quando se iniciou o isolamento social, emergiu a necessidade urgente de uma política pública que socorresse a economia e os trabalhadores mais afetados pela crise.
Nessa direção, o auxílio emergencial revelou milhares de trabalhadores até então invisíveis ao sistema: pessoas que trabalham muito, movimentam a engrenagem econômica e social, mas que viviam com pouca ou nenhuma proteção das políticas sociais e trabalhistas.

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Gestão de projetos e educação em tempos de mudança
Não há dúvidas de que esse período insólito ensinou muitas coisas. Uma delas é que, mesmo nas piores situações, é possível aprender.
A crise pandêmica, que inviabilizou o trabalho de muitos profissionais informais, liberais, autônomos e trabalhadores da cultura, ajuda a compreender melhor as mudanças ocorridas nas relações de trabalho nas últimas décadas.
Esse olhar também mostra que ainda somos formados e educados com base em conceitos tradicionais sobre trabalho. Muitos desses modelos já mudaram profundamente, mas culturalmente ainda resistimos a reconhecê-los.
Pandemia, trabalho e trabalhadores invisíveis
Com base no período pandêmico, tornou-se imprescindível compreender, estudar e analisar com mais profundidade as relações de trabalho e as diferentes estratégias de geração de renda.
Essas formas de trabalho não são exatamente novas. O que mudou foi a visibilidade que passaram a ter diante da crise.
Isso revela a necessidade de desenvolver ações educativas e formativas mais adequadas ao momento atual. Ainda somos educados, tanto na educação formal quanto na não formal, com a expectativa de formar mão de obra para uma indústria e uma economia que já não existem da mesma forma.
Por muito tempo, incutimos nos jovens o propósito de estudar, crescer, encontrar um trabalho com carteira assinada e seguir uma longa jornada até a aposentadoria.
A questão é que, há tempos, não há espaço para todos nesse modelo econômico.
Relações de trabalho e novos desafios para a educação
Diante desse cenário, muitas pessoas tentam empreender, outras se sustentam em trabalhos temporários, nos chamados “bicos”, outras buscam concursos públicos e tantas seguem tentando encontrar estabilidade em um mundo instável.
A escolaridade ainda está longe de ser a ideal, e há dificuldades em todos os campos. Mesmo para quem avançou no mundo acadêmico, é preciso reconhecer: não há um pote de ouro no fim do arco-íris. A luta é árdua e constante.
É justamente por isso que a educação precisa dialogar mais com planejamento, autonomia, leitura de contexto, organização de ideias, gestão de projetos e capacidade de adaptação.
Cultura, Lei Aldir Blanc e profissionalização do setor
Com o prolongamento da quarentena, houve um estrangulamento econômico dos trabalhadores do segmento cultural. Para aliviar parte desse sufoco, foi instituída a Lei Aldir Blanc, uma política pública emergencial voltada a trabalhadores, espaços, artistas, coletivos e entidades vinculadas à cultura.
Em um primeiro momento, parecia ter resolvido a problemática do setor.
Mas o que parecia simples e ágil deu início a uma série de desdobramentos. O processo revelou o longo caminho a ser percorrido para a profissionalização, organização e planejamento do setor cultural, assim como de outros segmentos muitas vezes tratados como informais.
Muitos trabalhadores encontraram dificuldades para preencher cadastros, organizar documentos, estruturar propostas, elaborar projetos e compreender as exigências administrativas.
Isso reforça a importância da gestão de projetos como conhecimento prático e estratégico.
Educação, projetos e protagonismo dos estudantes
Tudo isso reforça a necessidade de revermos os modelos e as concepções sobre trabalho, geração de renda, educação e formação.
As gestões públicas precisam estudar dados estatísticos, sociais e econômicos para desenvolver políticas públicas mais adequadas, capazes de promover emancipação financeira, formação cidadã e estratégias educacionais contextualizadas.
As políticas deveriam antecipar-se às mudanças, e não se limitar a correr atrás delas.
É por isso que defendo o ensino, nas diferentes fases da educação básica e superior, a partir de projetos pedagógicos e multidisciplinares, cujos temas sejam significativos tanto para educandos quanto para educadores.
O estreitamento entre pesquisa, conhecimento e prática transforma alunos e professores em protagonistas e produtores de conhecimento.
Quando os estudantes deixam de ser meros espectadores, passam a exercer com mais consciência sua condição de sujeitos sociais, históricos e transformadores.
Gestão de projetos e a educação. Porque aprender?
A vida exige, cada vez mais, que se aprenda a planejar, traçar estratégias, definir metas e organizar ações.
Isso vale para iniciativas simples do cotidiano e também para projetos mais complexos, arriscados ou coletivos.
Aprender sobre gestão de projetos oportuniza o desenvolvimento de conhecimentos, habilidades, técnicas e ferramentas necessárias para planejar, executar, acompanhar e avaliar uma iniciativa.
Em outras palavras, gestão de projetos não é apenas uma prática empresarial. É uma competência de vida, de trabalho, de educação e de cidadania.
Gestão de projetos, empreendedorismo e futuro do trabalho
Ao observar dados sobre empreendimentos que fracassam nos primeiros anos no Brasil, fica evidente que a educação e a formação ainda contribuem pouco para a emancipação econômica e social.
Os acontecimentos de 2020 e 2021 tornaram visível que a tão sonhada educação transformadora e emancipadora ainda permanece como um desafio.
Falar de empreendedorismo, portanto, não deve significar romantizar a precarização do trabalho. Significa compreender que as pessoas precisam de instrumentos para organizar ideias, avaliar riscos, planejar ações, buscar recursos, comunicar propostas e sustentar projetos.
Nesse ponto, a gestão de projetos se aproxima diretamente da educação.
Aprender a aprender: uma necessidade do nosso tempo
Que, após esse período tão desafiador, tenhamos sabedoria para aprender a aprender.
A pandemia escancarou fragilidades, mas também mostrou que planejamento, criatividade, pesquisa, leitura de contexto, capacidade de adaptação e organização são habilidades cada vez mais necessárias.
A educação tem tudo a ver com isso.
Porque educar também é preparar sujeitos para compreender o mundo, atuar nele, transformá-lo e construir alternativas diante das crises.
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Jussara Prates Girardi é escritora, produtora cultural e especialista em gestão estratégica de projetos, patrimônio, cultura e educação. Criadora da Sinapse Cultural, desenvolve livros, jogos educativos, oficinas, cursos, materiais pedagógicos e projetos voltados à valorização da memória, da diversidade cultural e da formação humana.
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