Ser ou não ser professor: valorização dos professores e a transformação pela educação
- Jussara Prates

- 20 de jun. de 2020
- 4 min de leitura
Atualizado: há 1 dia
Valorização dos professores e o papel da educação na sociedade
Há um momento na vida de uma criança em que algo profundamente transformador acontece: ela aprende a ler.
De repente, aqueles símbolos espalhados pelo mundo começam a fazer sentido. As placas, os rótulos, os livros, os bilhetes, as histórias, os números e as palavras deixam de ser sinais indecifráveis e passam a abrir caminhos.
A criança que aprende a ler deixa de ser estrangeira diante da escrita. Ela passa a participar de um mundo novo.
E, por trás desse acontecimento tão decisivo, quase sempre há uma presença fundamental: o professor.

Alfabetizar é abrir portas para o mundo
A alfabetização é uma das experiências mais importantes da vida humana.
Quando uma criança ultrapassa a linha do “não sei ler”, algo se amplia dentro e fora dela. A leitura permite acessar conhecimentos, imaginar outros mundos, compreender regras, fazer escolhas, formular perguntas, desenvolver autonomia e participar com mais segurança da vida social.
Alfabetizar exige técnica, estudo, paciência, sensibilidade, método, observação e compromisso. Mas também exige algo que, muitas vezes, só quem ensina conhece: a capacidade de acreditar no tempo de cada criança.
Por isso, ensinar a ler é um gesto pedagógico, social e profundamente humano.
O professor como mediador da aprendizagem
Ao longo da vida escolar, muitos professores participam da formação de uma criança.
Alguns ensinam letras.
Outros ensinam números.
Outros apresentam mapas, histórias, ciências, artes, livros, perguntas e possibilidades.
O professor é mediador entre o estudante e o conhecimento. Ele ajuda a organizar caminhos, provocar curiosidade, acolher dúvidas, estimular a participação e abrir espaços para que a aprendizagem aconteça.
No cotidiano escolar, esse trabalho exige muito mais do que domínio de conteúdo.
Exige escuta, empatia, planejamento, pesquisa, criatividade, responsabilidade, preparo emocional e compromisso com a formação humana.
Ser professor: vocação, profissão e realidade
Durante muito tempo, a sociedade tratou o professor como uma espécie de “sacerdote da educação”, alguém que deveria ensinar por amor, quase sem considerar condições de trabalho, salário, estrutura e reconhecimento profissional.
Ainda hoje, é comum ouvir frases como:
“Professor não é profissão, é vocação.”
Essa visão pode parecer bonita, mas é perigosa quando serve para naturalizar a desvalorização docente.
É claro que a educação exige afeto.É claro que ensinar envolve compromisso humano.É claro que o professor precisa acreditar no poder transformador da aprendizagem.
Mas amor pela profissão não substitui remuneração justa, formação continuada, estrutura adequada, tempo de planejamento, respeito social e políticas educacionais consistentes.
A valorização do professor é a valorização da sociedade
A valorização dos professores não é apenas uma pauta corporativa. É uma necessidade social.
Uma sociedade que desvaloriza seus professores enfraquece sua própria capacidade de formar leitores, pesquisadores, profissionais, cidadãos e pessoas capazes de compreender criticamente o mundo.
O professor participa da formação de muitas gerações. Seu trabalho alcança a infância, a juventude, as famílias, as comunidades e o futuro coletivo.
Por isso, falar em valorização docente é falar também em qualidade da educação, democracia, cidadania, cultura, ciência, leitura, desenvolvimento humano e justiça social.
A magia de ensinar e aprender
Existe, sim, uma espécie de magia na educação.
Mas ela não é ingênua.
A magia de ensinar não acontece por acaso. Ela nasce do trabalho diário, da preparação das aulas, da escuta dos estudantes, da adaptação das estratégias, da correção cuidadosa, da mediação dos conflitos, da leitura da realidade e da persistência diante das dificuldades.
Educar é transformar.
Transformar o medo em tentativa.
Transformar silêncio em palavra.
Transformar curiosidade em investigação.
Transformar símbolos em leitura.
Transformar experiência em conhecimento.
Essa é uma das maiores forças da profissão docente.
Educação, leitura e formação humana
No fantástico mundo da educação, o trabalho do professor permite que meninos e meninas sigam diferentes caminhos.
Ao aprender a ler, escrever, interpretar, argumentar, contar, observar, pesquisar e criar, os estudantes passam a construir novas possibilidades de existência.
A educação amplia horizontes. A leitura amplia mundos. A escola, quando bem cuidada, pode se tornar espaço de pertencimento, descoberta e transformação.
Mas nada disso acontece sem professores.
Por isso, reconhecer a importância da profissão docente é reconhecer a importância da própria educação.
Ser professor é enfrentar desafios diários.
É lidar com políticas públicas nem sempre suficientes, estruturas precárias, excesso de demandas, desvalorização social e, muitas vezes, remuneração incompatível com a responsabilidade da função.
Mas também é participar de uma das experiências mais decisivas da vida humana: ajudar alguém a aprender.
Ser professor é, de algum modo, estar presente nos futuros que ainda serão construídos.
Por isso, a pergunta “ser ou não ser professor?” carrega uma dimensão profunda.
Ela fala de escolha, paixão, desgaste, compromisso, profissão, realidade e esperança.
Educação que transforma
A verdadeira magia da educação não está em romantizar o professor.
Está em compreender que ensinar exige condições, formação, respeito e valorização.
Uma sociedade que deseja transformação precisa olhar com seriedade para seus professores.
Porque são eles que, todos os dias, ajudam crianças, jovens e adultos a lerem palavras, números, imagens, histórias e também o mundo.
Educar para transformar.
Essa é a verdadeira magia.
Sinapse Cultural e formação humana
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Jussara Prates Girardi é escritora, produtora cultural e criadora da Sinapse Cultural. Licenciada em História e Biologia, especialista em educação, arquivos, patrimônio, diversidade cultural e sustentabilidade, com MBA em Gestão Estratégica de Projetos, atua no desenvolvimento de livros, cursos, oficinas, jogos educativos, materiais pedagógicos e projetos culturais voltados à educação, memória, cultura e formação humana.












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