Memória urbana: quando as ruas revelam a história da cidade
- Jussara Prates

- 20 de jun. de 2020
- 5 min de leitura
Atualizado: há 16 horas

Avenida Brasil, Portão RS
Avenida Brasil, Portão/RS, e os caminhos da história local
As avenidas, ruas, estradas e becos constituem uma espécie de organismo circulatório da cidade.
São por esses caminhos que pessoas circulam, mercadorias se deslocam, histórias se cruzam, bairros se conectam e comunidades constroem parte de sua identidade. Ao longo do tempo, picadas, trilhas, estradas de ferro, vias de rodagem, pontes, embarcações e avenidas demonstram a importância desses acessos para interligar territórios, economias, culturas e modos de vida.
Quando observamos a formação de um espaço urbano, compreendemos melhor sua história.
A cidade não nasce pronta. Ela se transforma conforme as necessidades da população, os projetos públicos, as demandas econômicas, as disputas políticas, os deslocamentos humanos e os desejos de desenvolvimento.
Por isso, falar de memória urbana é reconhecer que as ruas também guardam narrativas.

Viaduto Otávio Rocha, POA RS, 1929.

Av. Paulista 1902
A cidade como espaço vivo
Os núcleos urbanos são fundamentais para o desenvolvimento e a manutenção do comércio, da indústria, dos serviços e da comunicação com outros centros.
As mudanças no sistema viário acompanham também a valorização do espaço ocupado. Uma avenida pode aproximar bairros, facilitar deslocamentos, impulsionar o comércio, reorganizar a vida cotidiana e alterar a forma como uma comunidade percebe seu próprio território.
No entanto, uma via pública nunca é apenas um traçado no mapa.
Ela também carrega memórias, disputas, decisões, expectativas e marcas de um tempo.
A cidade é um espaço vivo. E, como todo organismo vivo, possui artérias, ritmos, pulsações e histórias.


Avenida Brasil, 1990/2000
Avenida Brasil, em Portão/RS
A Avenida Brasil, em Portão/RS, é um exemplo importante de como uma via pode transformar o cotidiano e a organização de uma cidade.
Até poucas décadas atrás, Portão não contava com essa avenida. Acessar bairros como Portão Velho, Estação Portão e Rincão do Cascalho significava atravessar outros caminhos, como a Avenida Ceará ou a Perimetral.
O deslocamento era mais demorado. Muitas vezes, gastava-se um turno inteiro para resolver pequenas necessidades.
A falta de vias que interligassem núcleos urbanos isolados dificultava a circulação, atrasava o crescimento da cidade e criava obstáculos para o desenvolvimento econômico e social.


Viaduto Alfredo Lemmertz

A abertura da avenida e o desenvolvimento da cidade
Desde a emancipação do município, havia um projeto de abertura da Avenida Brasil. No entanto, a primeira administração não chegou a realizar a obra.
Na segunda legislatura, essa passou a ser uma reivindicação constante da comunidade, especialmente porque o núcleo mais urbanizado da época, o bairro Estação Portão, enfrentava dificuldades provocadas pelo isolamento geográfico.
A região contava com importantes indústrias, e os problemas de acesso dificultavam o escoamento, a comunicação com outros pontos da cidade e a própria dinâmica econômica local.
Uma avenida, nesse contexto, representava muito mais que uma obra viária.
Representava integração, circulação, desenvolvimento e possibilidade de futuro.


Avenida Brasil, Portão, RS (anos 80/90)
Alfredo Lemmertz e a memória oral da Avenida Brasil
Nos anos 1970, o senhor Alfredo Lemmertz, conhecido como seu Alfredinho, exercia a função de coordenador de obras e começou a defender a campanha pela abertura da avenida.
Segundo fontes orais, o prefeito da época, Antônio José de Fraga, não considerava essa obra uma prioridade para seu mandato. No entanto, em uma saída do prefeito, seu Alfredinho assumiu a Prefeitura por alguns dias e viu nessa oportunidade a chance de atender a uma reivindicação da comunidade.
Reuniu as poucas máquinas disponíveis, conseguiu outras emprestadas com o prefeito de São Sebastião do Caí e deu início à abertura da atual Avenida Brasil.
Certamente, a ousadia gerou crise e atritos no governo municipal. Mas não há como negar o impacto positivo que essa ação provocou no desenvolvimento da cidade.
Passadas algumas décadas, tornou-se consenso dizer que a Avenida Brasil se transformou em uma das principais vias de acesso de Portão.
Quando a cidade se torna humana
As cidades são humanas.
Além dos espaços físicos e geográficos, existem pessoas, memórias, conflitos, afetos, escolhas, silêncios e gestos que constroem o sentido dos lugares.
Uma rua pode guardar a lembrança de uma caminhada.
Uma avenida pode marcar o crescimento de uma cidade.
Uma ponte pode aproximar territórios.
Um viaduto pode carregar o nome de quem ousou defender uma transformação.
A cidade é um lugar de convivência dos agrupamentos humanos.
Possui símbolos culturais, pontos de identificação e espaços que modelam sua fisionomia.
Esses elementos aproximam as pessoas por meio da sociabilidade e do sentimento de identidade coletiva.
Por que trabalhar memória urbana na educação?
A memória urbana pode ser uma potente ferramenta de educação patrimonial.
Quando estudantes pesquisam ruas, avenidas, praças, pontes, prédios, escolas, arquivos, fotografias e relatos de moradores, eles começam a perceber que a história não está apenas nos livros.
Ela também está no caminho de casa para a escola.
Está no nome da rua.
Está na praça do bairro.
Está na avenida que liga comunidades.
Está nas fotografias antigas.Está nas histórias contadas pelos mais velhos.
Trabalhar história local ajuda os estudantes a reconhecerem o território como fonte de conhecimento, memória e pertencimento.
Sugestões de atividades pedagógicas
A partir de um texto como este, professores podem desenvolver atividades de educação patrimonial e história local.
Mapa afetivo da cidade
Os estudantes escolhem ruas, avenidas, praças ou lugares importantes para suas famílias e constroem um mapa com memórias, desenhos e relatos.
Entrevistas com moradores
A turma entrevista pessoas mais velhas da comunidade para descobrir como determinados espaços eram no passado.
Linha do tempo da avenida
A partir de fotografias antigas e atuais, os estudantes organizam uma linha do tempo mostrando transformações urbanas.
Nome das ruas e memória pública
A turma pesquisa quem foram as pessoas homenageadas em nomes de ruas, avenidas, escolas ou praças.
Álbum de memória urbana
A escola organiza um pequeno álbum, mural, exposição ou e-book com fotos, relatos, desenhos e textos produzidos pelos estudantes.
Essas práticas ajudam a transformar a cidade em sala de aula.
História local, território e pertencimento
Por muitos anos, a atual Avenida Brasil foi conhecida como Transalfredinho, uma referência bem-humorada à Transamazônica, iniciada na mesma época.
Essa memória popular revela como a comunidade cria seus próprios nomes, apelidos e narrativas.
A história oficial registra datas, administrações e obras.
A memória oral guarda gestos, personagens, versões e afetos.
Ambas importam.
Quando unimos documentos, fotografias, relatos e lembranças, conseguimos compreender melhor o processo de formação de uma cidade e o papel das pessoas que participaram dessa construção.
Por isso, estudar avenidas, ruas e caminhos é também estudar a vida coletiva.
Educação patrimonial e publicações de história local
A Sinapse Cultural desenvolve conteúdos, cursos, oficinas, livros e projetos voltados à educação, cultura, memória, patrimônio e história local.
Projetos como este podem se transformar em publicações escolares, livros de memória, exposições, materiais educativos e ações de educação patrimonial.
A cidade guarda muitas histórias.
Algumas estão nos arquivos.
Outras estão nas ruas.
Outras vivem na lembrança das pessoas.
A tarefa da educação patrimonial é ajudar a escutá-las, registrá-las e compartilhá-las.
Jussara Prates Girardi é escritora, produtora cultural e criadora da Sinapse Cultural. Licenciada em História e Biologia, especialista em educação, arquivos, patrimônio, diversidade cultural e sustentabilidade, com MBA em Gestão Estratégica de Projetos, atua no desenvolvimento de livros, cursos, oficinas, jogos educativos, materiais pedagógicos e projetos culturais voltados à educação, memória, cultura e formação humana.












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