top of page

A Educação na Pandemia

Atualizado: há 1 dia


Ilustração de alunos em sala de aula no contexto da pandemia ilustrando o distanciamento social.

Desigualdade social, acesso digital e direito à educação


A pandemia de COVID-19 evidenciou a desigualdade social e expôs a fragilidade do sistema de ensino no Brasil.

Apesar de terem se passado algumas décadas desde a promulgação da Constituição Federal de 1988, uma situação de calamidade revelou o quanto ainda não havíamos alicerçado as bases necessárias para garantir, de forma plena, o direito à educação.


A Constituição estabelece como objetivos fundamentais da República a construção de uma sociedade livre, justa e solidária, a garantia do desenvolvimento nacional, a erradicação da pobreza, a redução das desigualdades sociais e regionais e a promoção do bem de todos, sem discriminações.


No entanto, diante da pandemia, tornou-se evidente que esses princípios ainda estavam distantes da realidade de muitos estudantes, famílias e escolas brasileiras.


A pandemia revelou fragilidades antigas da educação brasileira


As medidas adotadas para a educação durante a pandemia foram, muitas vezes, insuficientes diante da dimensão do problema.


A fragilidade estrutural do sistema educacional tornou-se uma das responsáveis pela exclusão de estudantes do acesso às aprendizagens escolares. As previsões sobre déficits de aprendizagem, evasão, dificuldades de alfabetização e aprofundamento das desigualdades revelaram a gravidade do momento.


O Parecer CNE/CP nº 5/2020 do Conselho Nacional de Educação orientou a reorganização do calendário escolar e a realização de atividades pedagógicas não presenciais. No entanto, ao priorizar a continuidade das aprendizagens, o documento não eliminava uma questão central: como garantir o direito constitucional à educação em um país profundamente desigual?


A pandemia não criou todas essas fragilidades. Ela as revelou.


Ensino remoto, tecnologia e exclusão digital


A desigualdade social limitou o acesso de muitos estudantes às tecnologias.

Para parte das famílias, estudar remotamente com qualidade era inviável. Faltavam computadores, internet estável, ambiente adequado, acompanhamento pedagógico e condições materiais mínimas.


Muitos professores também não estavam preparados para ensinar por meio de plataformas digitais. Não por falta de compromisso, mas porque sua formação, em muitos casos, não os preparou para o uso pedagógico, metodológico e criativo das tecnologias digitais.


O Parecer CNE/CP nº 5/2020 reconhecia diferentes possibilidades para atividades não presenciais, como videoaulas, plataformas virtuais, redes sociais, correio eletrônico, blogs, programas de televisão ou rádio, materiais impressos e orientação de leituras, projetos e pesquisas.


Mas, entre as possibilidades previstas e a realidade vivida, havia um abismo.


O celular como sala de aula possível


Para muitas famílias brasileiras, o acesso à internet acontecia apenas pelo celular.


Não raro, esse único aparelho era compartilhado entre vários membros da família. Em algumas casas, o estudante precisava dividir o equipamento com irmãos, pais ou responsáveis. Em outras, faltava pacote de dados, sinal adequado ou espaço silencioso para estudar.

Grande parte dos programas, plataformas e softwares educacionais foi pensada para computadores, mas menos da metade da população tinha acesso regular a esse tipo de equipamento em casa.


Essa realidade mostrou que falar em ensino remoto sem discutir desigualdade digital era ignorar uma parte central do problema.


A tecnologia pode ampliar oportunidades, mas também pode aprofundar exclusões quando não há políticas públicas adequadas.


Professores diante de um mundo que mudou


A pandemia também evidenciou a urgência de repensar a formação docente.


As universidades e os sistemas de formação de professores ainda preparavam muitos educadores para um mundo que já vinha mudando rapidamente. Comunicação digital, plataformas, metodologias ativas, mediação tecnológica e produção de materiais digitais tornaram-se demandas centrais de um tempo em transformação.


Mas não se pode transferir aos professores, individualmente, toda a responsabilidade por essa adaptação.


Ensinar remotamente exigiu planejamento, reinvenção, aprendizagem rápida, disponibilidade emocional e, muitas vezes, uso de recursos próprios.

Muitos professores precisaram aprender fazendo, em meio ao medo, à sobrecarga, às perdas, à insegurança sanitária e à pressão por resultados.


A família como mediadora das aprendizagens


Durante a pandemia, as famílias passaram a assumir uma função ainda mais direta no acompanhamento das atividades escolares.


O Parecer CNE/CP nº 5/2020 sugeria que as escolas orientassem estudantes e famílias a organizarem um planejamento de estudos, com acompanhamento das atividades pedagógicas não presenciais e constituição de registros ou portfólios.


A orientação fazia sentido em teoria. Mas, na prática, encontrava limites profundos.


Muitas famílias não tinham condições pedagógicas, metodológicas, psicológicas, materiais ou temporais para assumir essa mediação. Havia responsáveis trabalhando fora, pessoas desempregadas, famílias em situação de vulnerabilidade, casas sem espaço adequado e adultos com baixa escolaridade.


É preciso lembrar que o artigo 205 da Constituição Federal afirma que a educação é direito de todos e dever do Estado e da família, devendo ser promovida e incentivada com a colaboração da sociedade.


Mas colaboração não significa transferência de responsabilidade.


Desigualdade educacional e aprendizagem


A desigualdade estrutural da sociedade brasileira agravou os impactos da pandemia na educação.


As diferenças entre escolas públicas e privadas, as condições socioeconômicas das famílias, o acesso às tecnologias, as desigualdades étnico-raciais, a proficiência escolar, as taxas de matrícula e a alfabetização já revelavam um cenário preocupante antes da crise sanitária.



Com a pandemia, essas diferenças se ampliaram.

Os grupos que já estavam inseridos no mundo digital sofreram prejuízos menores. Os estudantes com menos acesso à tecnologia, internet, apoio escolar e recursos culturais ficaram ainda mais distantes das aprendizagens esperadas.


Isso significa que a pandemia não atingiu todos da mesma forma.


No Brasil, o distanciamento social sempre existiu como realidade histórica. A pandemia apenas tornou essa distância mais visível e aprofundou lacunas no processo educativo.


Direito à educação em tempos de calamidade


A calamidade provocada pela pandemia não poderia ser usada como justificativa para reduzir o direito à educação de qualidade.


Crianças, adolescentes, jovens, adultos e idosos têm direito à educação. Esse direito não desaparece em tempos de crise. Ao contrário, torna-se ainda mais necessário.


O problema é que o Brasil já vivia uma espécie de calamidade silenciosa no campo dos direitos sociais.


Na escola, essa “bolha” social explodiu.


As desigualdades que muitas vezes permaneciam escondidas apareceram de forma brutal: falta de internet, falta de equipamentos, falta de formação digital, falta de saneamento, falta de moradia adequada, falta de renda, falta de apoio emocional e falta de políticas públicas integradas.


A educação na pandemia mostrou que não existe aprendizagem plena sem condições de vida.


Políticas públicas e responsabilidade dos gestores


O enfrentamento das desigualdades educacionais exige ação concreta dos gestores públicos.


Não basta reorganizar calendários, adaptar conteúdos ou propor atividades remotas.


É necessário enfrentar as causas estruturais que limitam o acesso à educação.


Isso envolve investimentos em infraestrutura, conectividade, formação docente, equipamentos, materiais didáticos, apoio às famílias, saneamento básico, moradia digna, reestruturação das escolas e políticas de equidade.


A escola não pode resolver sozinha problemas que pertencem à sociedade inteira.


Mas ela pode e deve ser um espaço de diálogo, acolhimento, reconstrução de vínculos e ressignificação das relações sociais.


A escola no pós-pandemia


No contexto posterior à pandemia, a escola precisou enfrentar muitos desafios.


A recuperação de conteúdos foi apenas um deles.


Também foi necessário lidar com luto, medo, insegurança, sofrimento emocional, violência, desemprego, queda de renda, desigualdade de acesso às tecnologias, evasão, dificuldades de aprendizagem e fragilização dos vínculos entre escola, estudantes e famílias.


Esse novo contexto nasceu agravado por questões históricas.


Por isso, não bastava fingir que tudo poderia voltar ao normal. Era preciso olhar de frente para as desigualdades e construir estratégias de recomposição das aprendizagens, acolhimento e justiça educacional.


Educação, projetos de vida e reconstrução social


A escola precisou se afirmar como espaço onde estudantes, professores e comunidade pudessem reconstruir projetos de vida pessoais e coletivos.


Em tempos difíceis, a educação não pode ser reduzida a conteúdo.


Ela envolve convivência, escuta, pertencimento, saúde emocional, leitura de mundo, cidadania, cultura, acolhimento e possibilidade de futuro.


A pandemia mostrou que a escola é muito mais que um espaço de transmissão de conteúdos. Ela é lugar de encontro, proteção social, alimentação, vínculo, brincadeira, descoberta, afeto, aprendizagem e construção coletiva.


O olhar humano sobre o retorno às aulas


Costumo olhar para o início de um ano letivo com esperança.


Penso nas novas aprendizagens, nas brincadeiras, nos lanches compartilhados, nos abraços, nos reencontros, nas histórias que começam a ser escritas em cada sala de aula.


Mas, naquele início de 2021, meus olhos estavam temerosos e meu coração apertado por todos os colegas profissionais da educação.


O retorno às aulas, em pleno agravamento da pandemia e sem vacinas disponíveis para a maioria dos profissionais da educação, não permitia vislumbrar o cenário com otimismo.


Havia medo.

Havia responsabilidade.

Havia incerteza.

Havia uma pergunta difícil: como cuidar da educação sem descuidar da vida?


O que aprendemos com a educação na pandemia?


A educação na pandemia mostrou que as desigualdades brasileiras não podem mais ser ignoradas.


Mostrou que tecnologia sem acesso democrático aprofunda exclusões.

Mostrou que professores precisam de formação, estrutura e valorização.

Mostrou que famílias não podem ser responsabilizadas sozinhas por processos pedagógicos complexos.

Mostrou que a escola é espaço de aprendizagem, mas também de vínculo, proteção e convivência.

Mostrou que políticas públicas precisam ser integradas, planejadas e comprometidas com a equidade.


Se há uma aprendizagem histórica nesse processo, ela está na urgência de compreender que educação de qualidade depende de condições concretas.


Sem investimento, não há equidade.

Sem inclusão digital, não há justiça educacional.

Sem valorização docente, não há transformação.

Sem políticas públicas consistentes, o direito à educação permanece incompleto.


Educação, memória e formação humana


A Sinapse Cultural desenvolve conteúdos, cursos, oficinas, livros, jogos educativos e projetos voltados à educação, cultura, memória e formação humana.


Conheça nossos artigos, cursos e propostas para escolas, professores, educadores e instituições que acreditam na educação como caminho de transformação social.




Jussara Prates Girardi é escritora, produtora cultural e criadora da Sinapse Cultural. Licenciada em História e Biologia, especialista em educação, arquivos, patrimônio, diversidade cultural e sustentabilidade, com MBA em Gestão Estratégica de Projetos, atua no desenvolvimento de livros, cursos, oficinas, jogos educativos, materiais pedagógicos e projetos culturais voltados à educação, memória, cultura e formação humana.

Comentários


bottom of page