Dia Internacional da Mulher: avanços e desafios
- Jussara Prates

- 7 de mar. de 2025
- 6 min de leitura
Atualizado: há 2 dias

O 8 de março como data política, histórica e social
O 8 de março é muito mais do que uma data comemorativa. O Dia Internacional da Mulher é uma data política, necessária para pautar reflexões, reivindicar mudanças de comportamento e fortalecer políticas protetivas, equitativas e comprometidas com a valorização integral das mulheres.
Quisera pudéssemos compreender este dia apenas como uma celebração festiva. Mas, enquanto houver mulheres e meninas sofrendo violência, sendo abusadas, silenciadas, exploradas, inferiorizadas ou trancafiadas em formas visíveis e invisíveis de opressão, o 8 de março continuará sendo um dia de luta.
Celebrar as conquistas é importante.
Mas lembrar os desafios ainda é indispensável.
A trajetória das mulheres e a luta por direitos
O processo histórico de ampliação da presença das mulheres no mercado de trabalho, na educação, nos direitos civis e na vida pública foi construído por meio de um longo e árduo caminho.
As mulheres lutaram pelo direito à profissionalização, por melhores condições de vida e trabalho, pelo direito ao voto, pela igualdade salarial, pela participação política, pelo acesso à educação e pelo reconhecimento de sua dignidade.
Essa trajetória foi marcada pela exclusão, pela marginalização, pela inferiorização e por desigualdades estruturais que ainda permanecem em muitas esferas da sociedade.
A mulher tem papel fundamental na história, mesmo que, muitas vezes, tenha sido colocada em condições de invisibilidade ou tratada como figura secundária.
Por isso, falar do Dia Internacional da Mulher é também reconhecer as mulheres que abriram caminhos e aquelas que continuam lutando para que novas gerações possam viver com mais liberdade, segurança e respeito.
Trabalho, maternidade e desigualdade de oportunidades
Um dos grandes desafios enfrentados pelas mulheres está na conciliação entre carreira, maternidade, cuidado com a família e vida pessoal.
A romantizada “dupla jornada feminina” ainda prejudica profundamente a igualdade de oportunidades. Muitas mulheres acumulam trabalho remunerado, cuidado com filhos, tarefas domésticas, cuidado com idosos e responsabilidades emocionais dentro da família.
Esse acúmulo não é apenas uma questão individual.
É uma questão social, econômica e política.
Por isso, é importante pensar em políticas e oportunidades equitativas, e não apenas igualitárias.
Igualdade significa oferecer o mesmo.Equidade significa reconhecer que as pessoas partem de lugares diferentes e, por isso, precisam de condições reais para acessar oportunidades.
Violência contra a mulher: um problema estrutural
Além da jornada exaustiva, muitas mulheres convivem com violência psicológica, emocional, patrimonial, financeira, física e sexual.
A violência contra a mulher não é um problema privado. É um problema social, cultural, jurídico, educacional e político.
Segundo os dados citados no artigo original, o Rio Grande do Sul registrou aumento de denúncias no Ligue 180 em 2024. O texto também menciona dados da Pesquisa Nacional de Violência contra a Mulher, do DataSenado, que apontam que parte significativa das mulheres brasileiras já sofreu algum tipo de violência doméstica ou familiar provocada por homem.
Esses números não são apenas estatísticas. São vidas. São histórias interrompidas, silenciadas ou feridas.
Cada dado representa uma mulher que, em algum momento, precisou lidar com medo, vergonha, insegurança, ameaça, dor ou abandono.
Lei Maria da Penha e a importância da informação
A Lei Maria da Penha, Lei nº 11.340/2006, é um marco no sistema jurídico brasileiro. Até sua promulgação, o país não contava com uma lei específica para enfrentar a violência doméstica contra a mulher.
A lei ampliou a compreensão sobre violência e reconheceu diferentes formas de agressão: física, psicológica, sexual, patrimonial e moral.
No entanto, apesar de sua importância, ainda há muitas mulheres que conhecem pouco ou nada sobre seus direitos. O artigo original destaca esse ponto a partir dos dados da pesquisa citada, indicando que o desconhecimento ainda é um obstáculo importante.
Por isso, a apropriação e a divulgação das leis, estudos e dados precisam fazer parte das discussões sobre o 8 de março.
Informação também é proteção.Conhecimento também é forma de enfrentamento.Direito conhecido tem mais chance de ser reivindicado.
Por que muitas mulheres não denunciam?
É comum que parte da sociedade pergunte: “Por que ela não denunciou?” ou “Por que ela não saiu dessa relação?”
Essas perguntas, quando feitas sem sensibilidade, transferem para a vítima uma responsabilidade que pertence ao agressor e à estrutura social que muitas vezes falha em protegê-la.
O medo do agressor, a dependência financeira, a falta de rede de apoio, a vergonha, a ameaça contra filhos e familiares, a falta de punição e o desconhecimento dos direitos são fatores que podem impedir uma mulher de denunciar.
Por isso, é fundamental romper com o discurso da culpa da vítima.
Violência é violência.
Ela degrada, aprisiona, incapacita, enfraquece a autoestima e cria formas profundas de submissão e sofrimento.
Cada vez que uma mulher sofre violência e a sociedade silencia, todas nós perdemos.
Empoderamento feminino e redes de apoio
O empoderamento feminino não é uma palavra vazia. Ele envolve autonomia, informação, segurança, liberdade, acesso a direitos, participação social, independência econômica e possibilidade real de decisão sobre a própria vida.
Conforme os princípios da ONU sobre empoderamento das mulheres, a liderança feminina contribui para igualdade de gênero, oportunidades iguais, saúde, segurança, liberdade e controle sobre a própria trajetória.
Mulheres unidas se fortalecem.
Redes de apoio salvam vidas.
Empoderar gera liberdade.
No Brasil, ainda são muito presentes os resquícios de uma sociedade patriarcal. Em muitos contextos, nem sempre as mulheres se solidarizam com o sofrimento de outras mulheres.
A competição maldosa, a indiferença e o julgamento moral rompem redes de apoio e dificultam a reação de vítimas.
Por isso, fortalecer mulheres não significa apenas promover discursos positivos. Significa criar condições concretas para que elas possam viver, trabalhar, estudar, liderar, denunciar, recomeçar e existir sem medo.
Mulheres no mercado de trabalho e na política
Os silenciamentos também aparecem no mundo do trabalho.
Mesmo quando possuem formação, experiência e preparo, muitas mulheres seguem encontrando barreiras para ocupar cargos de comando, chefias e liderança. Em situações de igualdade formativa, não é raro que homens sejam promovidos com mais facilidade, enquanto mulheres permaneçam em funções assessórias, com menor visibilidade e salários mais baixos.
Na política, os desafios também são significativos.
O preconceito, a violência política de gênero, a falta de apoio familiar, a sobrecarga doméstica, o julgamento público e a estrutura partidária muitas vezes inibem a participação de mais mulheres em cargos eletivos.
É preciso empoderar.
Porque mulheres na política, na ciência, na cultura, na educação, na economia, nas artes e nos espaços de decisão ampliam perspectivas e fortalecem a democracia.
Empoderar mulheres é transformar a sociedade
Empoderar não se refere somente às mulheres individualmente.
Mulheres empoderadas fortalecem redes, famílias, comunidades, instituições e territórios. Elas ampliam repertórios, criam oportunidades, sustentam outras pessoas, produzem conhecimento, movimentam economias e transformam vidas.
O empoderamento feminino também contribui para o crescimento econômico, social, cultural e político de uma nação.
Por isso, falar de mulheres é falar de sociedade.
Falar de direitos das mulheres é falar de desenvolvimento humano.Falar de proteção às mulheres é falar de justiça.Falar de equidade de gênero é falar de futuro.
O Dia Internacional da Mulher precisa continuar sendo lembrado
O 8 de março precisa continuar sendo um espaço de reflexão, denúncia, memória, luta e construção coletiva.
Não basta entregar flores.Não basta publicar homenagens.Não basta repetir frases bonitas.
É preciso enfrentar a violência.É preciso ampliar políticas públicas.É preciso educar para o respeito.É preciso proteger meninas e mulheres.É preciso combater o machismo.É preciso valorizar a presença feminina na história, na ciência, na cultura, na política e no trabalho.
O Dia Internacional da Mulher deve nos lembrar que avanços foram conquistados, mas os desafios permanecem.
Uma luta também pela humanização
Para finalizar esta reflexão, recupero uma fala de Emma Watson, atriz que se destacou ainda criança em uma das séries literárias e cinematográficas mais lidas e assistidas do mundo, Harry Potter.
Ela afirmou:
Quero que os homens se comprometam para que, assim, suas filhas, irmãs e mães se libertem do preconceito e para que seus filhos sintam que têm permissão para serem vulneráveis, humanos e uma versão mais honesta e completa deles mesmos.
Escolhi Emma Watson por sua clareza ao lembrar que os homens são filhos, irmãos, pais, companheiros e amigos de mulheres.
O respeito às mulheres é, sobretudo, uma questão de humanização.
É uma luta que precisa continuar.Por todas as mulheres que se levantaram antes de nós.Por todas as que ainda não conseguem se levantar.E pelas novas gerações que ainda precisam de nós.
Cultura, educação e direitos das mulheres
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Jussara Prates Girardi é escritora, produtora cultural e criadora da Sinapse Cultural. Licenciada em História e Biologia, especialista em educação, arquivos, patrimônio, diversidade cultural e sustentabilidade, com MBA em Gestão Estratégica de Projetos, atua no desenvolvimento de livros, cursos, oficinas, jogos educativos, materiais pedagógicos e projetos culturais voltados à educação, memória, cultura e formação humana.
Saiba mais: -A MULHER NA CIÊNCIA: DESAFIOS E PERSPECTIVAS. THE WOMAN IN SCIENCE: CHALLENGES AND PERSPECTIVES. Daniela Maçaneiro Alves
-Pesquisa DataSenado: Pesquisa Nacional de Violência contra a Mulher Novembro/2023











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