Cristianismo e Semana Santa: história, cultura e humanismo
- Jussara Prates

- 9 de abr. de 2020
- 4 min de leitura
Atualizado: há 4 dias

De forma simplificada, costumamos entender a Semana Santa como uma tradição cristã que celebra a paixão, a morte e a ressurreição de Jesus Cristo. Ela se inicia no Domingo de Ramos, que relembra a entrada de Jesus em Jerusalém, e culmina no Domingo de Páscoa, associado à ressurreição.
Mas o cristianismo também pode ser lido para além da fé. Seu percurso histórico atravessa a formação moral, política e cultural de grande parte do mundo ocidental. Por isso, compreender o cristianismo como fenômeno histórico e cultural ajuda a refletir sobre ideias como igualdade, fraternidade, liberdade, consciência, poder, sacrifício, paz e humanidade.
Cristianismo e Semana Santa como história, cultura e pensamento
O cristianismo se consolidou em um mundo marcado por estruturas religiosas, políticas e familiares muito diferentes das atuais. Nas cidades antigas, especialmente na Grécia e em Roma, religião, propriedade, família e poder estavam profundamente conectados.
A partir desses questionamentos, revisito a obra A Cidade Antiga, de Fustel de Coulanges, que analisa o surgimento dos conceitos de Direito, Família e Propriedade nas antigas cidades greco-romanas.

Partindo desses questionamentos revisito a obra “A Cidade Antiga”, do autor francês Fustel de Coulanges, onde explica o surgimento dos conceitos de Direito, Família e Propriedade nas antigas cidades da Grécia e Roma primitivas. Constituídas anteriores ao nascimento de Cristo, nelas imperava a religião doméstica, em que idolatravam o fogo sagrado, e através da manutenção de ritos aos antepassados de linhagem masculina de uma mesma família, mantinham o poder sobre a propriedade, a moral e sobre a política.
O direito a propriedade era totalmente privado e fundido à religião doméstica e familiar. Não foram as leis, mas a religião, que primeiro garantiu o direito de propriedade. A família era um estado organizado, com chefe hereditário, bastando para si própria, explorando a clientela e os escravos, podendo constituir-se de numeroso grupo, com uma religião que lhe mantinha a unidade, por meio do direito privado, leis próprias e formando extensa sociedade. Com o tempo, as famílias se juntavam em genos, que formavam grupo com descendência comum e origem “pura”.

A cidade antiga reuniu uma sociedade complexa que se diferenciava entre cidadãos e estrangeiros, livres e escravos, membros das famílias (patrícios) e plebeus, vinculando os poderosos com os marginalizados pelas relações de patrão-cliente. Várias cerimônias públicas regulavam a vida da cidade. O indivíduo não gozava de liberdade, antes vivia em função dos interesses de quem controlava a cidade.
De forma contínua a história se processa e mudanças impactam essa antiga organização social e aos poucos foram transformando o modo de ver e compreender o mundo. Uma das mudanças foram as conquistas do império romano, que enfraqueceu os deuses locais, outra foi a própria evolução humana que, através do conhecimento, questionamentos acerca da vida e do mundo, criaram concepções mais abstratas sobre a religião, dando origem a filosofia que, de certa forma, passa a entrar em choque com as antigas estruturas e conceitos.

Os filósofos tiraram a religião e a política do campo do intocável, do divino e do inquestionável. Tiraram a moral, a verdade e a justiça do campo da religião. Como sabemos, muitos desses precursores foram exilados ou condenados a morte. O fato é que, mesmo quando os manuscritos eram queimados, ficavam soltas as ideias, e isso vai repercutir através do tempo.
No rastro de poeira das antigas crenças é que o cristianismo se consolida inspirado na evolução humana, no conhecimento, e trazendo à luz novos conceitos sobre a vida, questionamentos e abstrações sobre a própria religião com nuances filosóficas. Não se trata aqui da defesa, discussão ou afirmação se Cristo existiu, se não existiu, se era deus ou personagem histórico. Trata-se da concordância com a obra de Fustel, que considera que o cristianismo foi uma evolução na história do pensamento. Afinal, quando as ideias proferidas por Jesus Cristo se espalharam, elas obrigaram o poder e as estruturas das sociedades a mudar. Foi um avanço porque a partir dele o “deus” passou a ser onipresente, cosmopolita e universal, cuja presença de todos era importante independente da classe social e origem. É claro que esses novos conceitos incomodaram!

Nesse novo modelo devia-se “amar seus inimigos”, “acolher os estrangeiros” e pela primeira vez passou a vigorar a ideia de igualdade entre os homens porque “todos somos filhos de um mesmo deus”. Surgem aí os princípios do Humanismo onde a fé se baseava numa relação de confiança. Já não precisavam sacrifícios para agradar aos deuses, pois “o homem com a sua consciência tem livre arbítrio”, mensagem altamente libertadora porque dá espaço, pela primeira vez, à intenção.
O cristianismo retoma a ideia defendida por alguns filósofos de que religião não deve estar presente na política. Afinal, “o meu reino não é deste mundo” e “dai a César o que é de César”. Ideias inovadoras que beneficiaram as sociedades quando se defendia a liberdade. O humanismo cristão defendia que “todos somos irmãos” e a fraternidade instruía a amar o inimigo.

Os conceitos do cristianismo foram inovadores, pois viabilizou a possibilidade do questionamento, pois, se “todos são iguais perante deus” porque não temos direitos sobre à terra e sobre a sua riqueza? Esses novos conceitos abriram espaço para a ciência e o progresso, plantou as sementinhas do que futuramente foi chamado de democracia e certamente defendeu a paz e a igualdade entre os povos.

Quisera que as crianças aprendessem mais sobre o cristianismo e semana santa do que sobre ovos e coelhos de chocolate. Que houvesse mais interesse para aprender e ensinar sobre o humanismo, a igualdade e a fraternidade. Quisera “lembrar que o Deus crucificado é, junto à ressurreição, a intuição mais radical de
nossa fé. Fala-nos da fragilidade humana, assumida pelo mesmo Deus; fala-nos da paz como único caminho, frente a outras sendas construídas sobre o rancor, a violência ou a lei implacável; fala-nos do amor como a maior transgressão em um mundo que etiqueta muitas pessoas como indignas de serem amadas.
Há lugares e situações de vida diante dos quais não podemos deixar de exclamar: “Sempre é Sexta-feira Santa!”: miséria, exaltação da violência, relações centradas na intolerância, solidão, sonhos quebrados...”

"Cenas da Paixão de Cristo" - Hans Memling Pintor flamengo (c. 1433-1494)
Jussara Prates Girardi é escritora, produtora cultural e criadora da Sinapse Cultural. Licenciada em História e Biologia, especialista em educação, arquivos, patrimônio, diversidade cultural e sustentabilidade, com MBA em Gestão Estratégica de Projetos, atua no desenvolvimento de livros, cursos, oficinas, jogos educativos, materiais pedagógicos e projetos culturais voltados à educação, memória, cultura e formação humana.
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Boa leitura!