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Ametista do Sul: só se conhece um lugar quando a experiência nos possibilita conhecer também a sua história

há 1 hora
8 min de leitura


Viajar é sempre uma forma de encontrar histórias. Algumas estão nas paisagens, outras permanecem guardadas nos edifícios, nos objetos, nos sabores, nas formas de trabalhar e nas memórias de quem vive em determinado lugar. Há, porém, cidades em que essas camadas parecem especialmente visíveis. Ametista do Sul, no norte do Rio Grande do Sul, é uma delas.


Conhecida pelas ametistas que há décadas atravessam fronteiras e chegam a diferentes lugares do mundo, a cidade construiu em torno de sua singularidade geológica uma identidade que ultrapassou a mineração. As antigas galerias subterrâneas ganharam novos usos, surgiram empreendimentos turísticos, vinícolas, museus, restaurantes, lojas, experiências rurais e espaços culturais.


O visitante que chega atraído pelas pedras encontra hoje uma cidade que soube reinventar muitas das suas relações com o território.


Mas Ametista do Sul não começou com a ametista.


Para compreender a cidade que recebe os turistas de hoje é preciso voltar no tempo e ampliar o olhar.



Antes de Ametista, o Alto Uruguai


A história de Ametista do Sul faz parte de um processo muito mais amplo de formação do norte rio-grandense. Foi justamente essa perspectiva que procurei adotar quando escrevi Ametista do Sul – 30 anos: Nossa História, publicado em 2022. Em vez de iniciar a narrativa pela emancipação do município, a pesquisa voltou-se para a ocupação do Rio Grande do Sul e, especialmente, para o Alto Uruguai, porque uma cidade nunca se forma isoladamente.


O território que hoje reconhecemos como parte do Médio Alto Uruguai carrega uma história muito anterior aos limites municipais contemporâneos. A presença indígena, especialmente Kaingang, antecede os processos posteriores de colonização. Ao longo do tempo, diferentes políticas de ocupação da terra, migrações e colonizações provocaram sucessivos processos de territorialização, desterritorialização e reterritorialização, modificando profundamente as relações entre as populações e esse espaço.

 























No século XIX e nas primeiras décadas do XX, a expansão das frentes colonizadoras, a comercialização das terras e o desenvolvimento da agricultura contribuíram para modificar a paisagem e formar novas comunidades. A pequena propriedade familiar assumiu importância econômica e social, enquanto caminhos passaram a ligar povoados que, gradativamente, constituiriam uma rede regional de relações.


Nesse processo estavam também as populações que a narrativa histórica durante muito tempo deixou nas margens. O livro recupera a presença dos Kaingang no curso superior do rio Uruguai e lembra que, no século XVIII, ocupavam extensas áreas das florestas do Alto Uruguai, numa territorialidade muito anterior às divisões municipais que conhecemos hoje.


Conhecer essa história amplia nossa compreensão da região porque nos lembra que os territórios são feitos de muitas camadas e que nenhuma delas deveria desaparecer quando contamos a seguinte.














Entre a agricultura, a floresta e as primeiras pedras


Foi nesse contexto regional que começou a se formar a localidade que daria origem a Ametista do Sul.


A história oficial do município situa suas origens na década de 1930, quando a região ainda apresentava grandes dificuldades de acesso e os caminhos avançavam por uma paisagem fortemente florestada, estabelecendo ligações com Iraí, Planalto, Rodeio Bonito e Barril, atual Frederico Westphalen. Nas décadas seguintes, famílias chegaram para trabalhar especialmente com a agricultura, pequenos estabelecimentos comerciais surgiram e a comunidade começou a se estruturar.


A religiosidade também participou dessa formação. Um pequeno altar dedicado ao Arcanjo São Gabriel contribuiu para que a localidade ficasse conhecida por esse nome, denominação que permaneceria até a emancipação. O livro mostra que os capitéis construídos pelas comunidades na década de 1940 constituíram algumas das primeiras referências coletivas de seus moradores.


Enquanto a comunidade se organizava na superfície, outra história começava a ser descoberta no subsolo.


As primeiras pedras foram encontradas por agricultores e moradores da região próximas a raízes de árvores, córregos e áreas cultivadas. A exploração, inicialmente bastante rudimentar, transformou-se com o passar das décadas. Os poços deram lugar a técnicas mais complexas e, especialmente a partir dos anos 1970, as galerias subterrâneas modificaram a escala da atividade mineradora.


A mineração começaria a transformar não apenas a economia, mas a própria maneira como a comunidade se reconhecia.

























Quando a pedra passou a fazer parte da identidade



O garimpo produziu trabalho, renda e comércio, mas produziu também conhecimentos, histórias, vocabulários, relações familiares e uma memória própria. A vida de muitas famílias passou a estar relacionada, direta ou indiretamente, à mineração, enquanto as ametistas e outras gemas conectavam aquela pequena comunidade do norte gaúcho a mercados nacionais e internacionais.


Não por acaso, quando o movimento emancipacionista avançou e tornou-se necessário escolher um novo nome, uma vez que São Gabriel já designava outro município gaúcho, a referência à riqueza mineral praticamente se impôs. Em 20 de março de 1992, por meio da Lei nº 9.570, o antigo distrito de São Gabriel tornou-se Ametista do Sul.

A pedra estava no território, na economia, no cotidiano e, a partir daquele momento, também no nome da cidade.


Essa relação permanece evidente. A mineração continua tendo peso econômico e a cadeia das pedras vai muito além da extração, alcançando o beneficiamento, o comércio, a produção de joias, objetos decorativos e artesanato. A Expopedras, por exemplo, conecta indústria e comércio de gemas e joias aos mercados nacional e internacional e, simultaneamente, funciona como espaço de divulgação turística.


Entretanto, como ocorre em tantos territórios dependentes de recursos naturais, Ametista precisou enfrentar uma questão inevitável: os minerais são finitos.


O próprio livro já apontava esse desafio e registrava uma transformação que se tornaria decisiva. À medida que algumas minas encerravam sua função produtiva, antigas galerias começaram a ser reaproveitadas por empreendimentos ligados ao entretenimento, à gastronomia, ao lazer, à cultura e ao turismo.


Era aceitar a ruína ou mudar a forma de olhar para as ruínas que o garimpo produziu. Era preciso reinventar-se!

























A cidade que transformou a mina em experiência


Certamente a grande virada de Ametista do Sul tenha ocorrido quando a cidade percebeu que uma galeria poderia continuar produzindo valor mesmo depois de deixar de produzir pedras.


Não mais pela extração, mas pela experiência.













Essa mudança ajuda a compreender a diversidade que o visitante encontra hoje. No Garimpo em Atividade, é possível aproximar-se do universo do trabalho garimpeiro. O Ametista Parque Museu reúne minerais, galerias subterrâneas, comércio, gastronomia e outras experiências relacionadas ao universo das pedras. O Geoparque Subterrâneo acrescenta outra possibilidade de vivenciar o subterrâneo, enquanto o Museu Subterrâneo de Minerais Gigantes amplia esse repertório ligado à geologia e à mineração. A própria Secretaria Municipal de Turismo apresenta hoje um conjunto ainda maior de atrações, que inclui a Galeria Capra, o Museu do Bambu, agroindústria e outros empreendimentos.


A criatividade aparece também na maneira como outras atividades foram incorporadas ao turismo. A Vinícola Ametista utiliza antigas galerias subterrâneas para o envelhecimento de vinhos; empreendimentos rurais aproximam os visitantes de morangos, geleias, produtos coloniais e cervejas artesanais; o comércio oferece desde a pedra bruta até joias e objetos elaborados; e a Igreja Matriz São Gabriel incorporou toneladas de ametistas ao espaço religioso.


Não se trata, portanto, de uma cidade com “um ponto turístico”. Aos poucos foi sendo formado um ecossistema de experiências, no qual mineração, geologia, comércio, agricultura, vitivinicultura, gastronomia, religiosidade, natureza e empreendedorismo passaram a conversar.


Entre tantas, essa talvez seja uma das dimensões mais interessantes de Ametista do Sul: a capacidade de transformar características que já pertenciam ao território em novas possibilidades econômicas sem necessariamente apagar aquilo que veio antes.























































O turismo também é uma maneira de contar histórias


É justamente nesse ponto que surge outra questão.



Uma cidade pode oferecer excelentes restaurantes, hotéis, paisagens, compras, passeios e experiências. Podemos fotografar, experimentar, entrar em uma mina, degustar um vinho, comprar uma pedra e seguir viagem. Tudo isso pode produzir lembranças agradáveis.


Mas existe uma diferença entre passar por um lugar e compreender um lugar.


Quando conhecemos a história da região, aquela mina deixa de ser apenas um túnel impressionante. Passamos a imaginar os trabalhadores que durante décadas entraram nas galerias, as famílias que dependeram do garimpo, os conhecimentos construídos na prática e as transformações que aquela atividade provocou.


A ametista comprada como lembrança deixa de ser somente um objeto bonito quando compreendemos por que aquela pedra está relacionada ao próprio nome da cidade.


A igreja ganha outra dimensão quando conhecemos a religiosidade que acompanhou a formação das primeiras comunidades.


O vinho armazenado no subterrâneo torna-se ainda mais interessante quando percebemos que uma estrutura criada para retirar pedras encontrou outra função econômica.


Até a paisagem muda quando sabemos quem a ocupou, como foi transformada e quais histórias permanecem nela.


É a história que começa a costurar aquilo que o visitante experimentou.























É nesse contexto que considero particularmente interessante a chegada da Galeria de Antiguidades Ametista ao circuito turístico da cidade.


A Galeria acrescenta uma nova experiência a um destino que já aprendeu a surpreender. Ao reunir objetos de diferentes épocas e procedências, abre uma porta para conversar sobre modos de viver, trabalhar, produzir, comunicar, viajar e construir sociedades. A experiência com os objetos também pode despertar algo essencial para qualquer política de memória: a curiosidade.


Um objeto antigo nunca é apenas antigo.


Ele pode carregar uma técnica que desapareceu, uma profissão que se transformou, uma maneira de organizar a vida cotidiana, uma lembrança familiar ou uma relação entre pessoas e lugares. Quando existe pesquisa, conservação, curadoria e interpretação, aquilo que poderia ser apenas uma coleção passa a ser uma possibilidade de conhecimento.






















Acredito que Ametista do Sul esteja diante de uma oportunidade ainda maior: aproximar cada vez mais essas experiências da própria história regional, fazendo com que geologia, garimpo, agricultura, imigração, presença indígena, religiosidade, trabalho, comércio, industrialização das pedras, turismo e memória possam ser compreendidos como partes de uma mesma trajetória.


O viajante também leva a história consigo


Na abertura de Ametista do Sul – 30 anos: Nossa História, escolhi uma adaptação de Paulo Freire que diz que “a leitura do mundo precede a leitura da palavra e o primeiro livro é a cidade, o contexto onde se vive”.


Tenho uma relação muito particular com essa frase e com esse livro, porque nasci em Ametista do Sul. Muitos anos depois, retornar a esse território como historiadora para pesquisar e escrever parte de sua trajetória significou olhar novamente para um lugar que também faz parte da minha própria história.


Talvez por isso eu acredite tanto que conhecer uma cidade precisa ser mais do que colecionar lugares visitados.


Uma boa viagem é feita de sabores, paisagens, encontros, descobertas e até de surpresas que não estavam no roteiro. É justamente essa diversidade que torna tão ricas as cidades turísticas. Entretanto, quando encontramos espaços capazes de nos contar de onde aquele lugar veio, quem o construiu, quais dificuldades enfrentou, o que preservou e como se transformou, todas aquelas experiências começam a estabelecer relações entre si.



















A mina encontra o garimpeiro. A pedra encontra o trabalho. O vinho encontra a galeria. A igreja encontra a fé das primeiras comunidades. A paisagem encontra os povos que a habitaram. Os objetos encontram as pessoas que os utilizaram. E o presente encontra o passado sem precisar permanecer preso a ele.


Nesse momento, o visitante deixa de conhecer apenas atrações e começa a conhecer um território.

É quando a viagem, de alguma maneira, se completa.


Porque podemos voltar para casa levando fotografias, uma pedra, um vinho, um objeto ou o sabor de alguma experiência que ficou na memória. Mas, quando compreendemos a história e a cultura do lugar que visitamos, levamos algo que não cabe na bagagem: passamos a compreender o sentido daquilo que vimos e vivemos.


E aquela história, que antes pertencia somente ao lugar e às pessoas que o construíram, encontra espaço também em nossa memória.


Talvez seja essa uma das formas mais bonitas de viajar: chegar como visitante e partir levando consigo um pequeno pedaço da história de um lugar que, a partir daquele encontro, passa a fazer parte também da sua própria história.




























Conheça mais sobre Ametista do Sul Baixe o livro Ametista do Sul 30 Anos: Nossa História




 
 
 

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