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Do Rio Grande do Sul ao Maranhão: memória, patrimônio e experiências que atravessam territórios

há 7 dias
6 min de leitura

Há experiências profissionais que não cabem apenas em um certificado, em uma fotografia ou nas páginas de um relatório. Elas permanecem porque nos deslocam não somente geograficamente, mas também na forma de olhar para aquilo que fazemos, para o território onde vivemos e para as histórias que ajudamos a contar.


Em julho de 2026, tive a oportunidade de levar ao Maranhão algumas experiências desenvolvidas ao longo de minha trajetória no Rio Grande do Sul, a partir da participação no XV Encontro Regional da ANPUH-Maranhão, em São Luís. A mobilidade foi viabilizada pelo Edital SEDAC nº 06/2026 – FAC RS Mobilidade, do Fundo de Apoio à Cultura do Rio Grande do Sul, no segmento Memória e Patrimônio.

Mais do que apresentar um trabalho, foi uma oportunidade de colocar experiências, práticas e territórios em diálogo.


Um projeto que nasce da história local


A proposta apresentada ao FAC partiu de um eixo que acompanha grande parte da minha trajetória profissional: a relação entre educação, memória, patrimônio cultural e produção de materiais educativos a partir da história local.


A comunicação aprovada para o encontro, intitulada “Educação cultural, patrimônio e produção de materiais didáticos: experiências a partir da história local no Rio Grande do Sul”, reuniu experiências construídas em diferentes municípios gaúchos, especialmente por meio de livros paradidáticos, projetos de história local, materiais pedagógicos e ações de educação para o patrimônio.


Quando produzimos materiais sobre um território, não estamos apenas organizando informações sobre o passado. Estamos escolhendo quais histórias serão contadas, quais memórias serão preservadas, quais sujeitos aparecerão e de que forma as próximas gerações poderão reconhecer o lugar onde vivem.


Foi justamente essa reflexão que conduziu a apresentação no Maranhão.


O território também é um livro


Ao longo dos anos, fui compreendendo que a história local pode chegar à escola e à comunidade de muitas formas.


Pode estar em um livro. Em uma fotografia antiga. Em um objeto guardado por uma família. Em um arquivo municipal. Em uma receita. Em uma festa. Em uma paisagem. Em um jogo educativo. Em uma exposição. Em uma conversa com alguém que guarda uma memória que ainda não foi registrada.


Na apresentação realizada no encontro, compartilhei experiências desenvolvidas no Rio Grande do Sul envolvendo pesquisas, publicações, projetos de educação patrimonial, produção editorial, formação, exposições, registros de memória e materiais educativos. A própria apresentação levou exemplos concretos dessas ações, incluindo livros, jogos e materiais paradidáticos.  


A intenção não era mostrar um modelo pronto.


Era compartilhar caminhos.


Levar o Rio Grande do Sul para outros territórios


Um dos objetivos do FAC Mobilidade é justamente ampliar a circulação da produção cultural gaúcha para além das fronteiras do Estado. No projeto aprovado, essa dimensão estava expressamente relacionada à apresentação de experiências desenvolvidas no Rio Grande do Sul e ao intercâmbio com profissionais de outras regiões do país.


Durante a comunicação oral, os materiais passaram de mão em mão.


Livros foram folheados. Jogos despertaram curiosidade. Projetos realizados em municípios gaúchos foram discutidos. Surgiram perguntas sobre educação patrimonial, turismo cultural, história local, publicações e formas de trabalhar a cultura dentro e fora da escola.


Os registros da atividade mostram a apresentação dos projetos de educação para o patrimônio e dos materiais paradidáticos produzidos no Rio Grande do Sul.  


Alguns desses materiais permaneceram no Maranhão e também seguiram para outros estados pelas mãos de participantes do encontro.


Talvez esta seja uma das imagens que melhor representa o sentido da mobilidade cultural: um trabalho criado em um território encontrando novos leitores, novos olhares e novos caminhos em outro lugar do Brasil.


E o Maranhão também veio comigo


Mas uma experiência de intercâmbio nunca acontece em uma única direção.

Se levei ao Maranhão um pouco das experiências construídas no Rio Grande do Sul, voltei trazendo outras perguntas, referências e aprendizados.


A programação do XV Encontro colocou em debate temas muito próximos do meu campo de atuação: patrimônio, memória, ensino de História, diversidade cultural, povos indígenas e africanos, disputas de narrativas e o próprio papel social do historiador.


A participação nas mesas, palestras, oficinas, simpósios e atividades culturais ampliou a experiência para muito além do momento da apresentação oral.


Foi também uma oportunidade de conhecer o Maranhão a partir de suas próprias referências.




As visitas de estudo realizadas durante a permanência em São Luís foram particularmente importantes para minha atuação como historiadora e profissional do patrimônio.


No Museu da Gastronomia, o patrimônio apareceu nos sabores, nos ingredientes, nos modos de fazer e nas relações entre cultura e economia.


No Centro de Pesquisa de História Natural e Arqueologia do Maranhão, foi possível observar acervos, formas de acondicionamento, exposição e ações de educação patrimonial.  


No Cafuá das Mercês, a arquitetura, os objetos e a mediação museológica conduziram a uma reflexão sobre escravização, memória e representação da presença africana na história brasileira.

São experiências que reforçam algo que sempre atravessa meu trabalho: o patrimônio não existe isolado das pessoas que lhe atribuem sentido.


Guardar é importante. Pesquisar é fundamental. Mas interpretar, comunicar e permitir que as pessoas se reconheçam — ou questionem aquilo que está sendo contado — também faz parte do processo de preservação.


Cultura que se aprende vivendo


São Luís também ensina fora dos museus.


O encontro proporcionou contato com manifestações da cultura popular maranhense, palestras sobre religiões de matriz africana e terreiros, além de apresentações relacionadas ao Bumba Meu Boi e ao Cacuriá.


Ali, patrimônio material e imaterial convivem de maneira muito evidente.

Arquitetura, música, dança, religiosidade, culinária, ancestralidade e memória ocupam o mesmo território.


E talvez uma das maiores aprendizagens de uma mobilidade cultural seja justamente esta: compreender o território do outro também nos ajuda a enxergar melhor o nosso.

Quando alguém de outra região pergunta sobre a cultura gaúcha, sobre nossos patrimônios, sobre nossas formas de preservar e ensinar história, somos obrigados a olhar novamente para aquilo que nos parece familiar.


O outro também nos devolve perguntas.


O encontro entre pesquisa e prática


Uma das características da comunicação apresentada foi justamente aproximar reflexão acadêmica e prática profissional.


A proposta nasceu de uma trajetória construída como professora, historiadora, pesquisadora, produtora cultural, escritora e editora de materiais educativos.


Por isso, a apresentação não ficou restrita às referências teóricas.


Ela mostrou experiências concretas.


Projetos de história local. Produção de livros. Educação patrimonial. Materiais educativos. Formação. Exposições. Acervos particulares utilizados como recursos pedagógicos em empreendimentos turísticos. A própria apresentação trouxe exemplos da utilização do patrimônio cultural em iniciativas ligadas ao turismo.


Esta é uma perspectiva que continua orientando meu trabalho: conhecimento precisa circular.

Da pesquisa para o livro.

Do livro para a escola.

Da escola para a comunidade.

Do patrimônio para o turismo.

Da memória para novos projetos.



O FAC Mobilidade tornou possível uma experiência que dificilmente terminaria com o retorno ao Rio Grande do Sul.


As conversas, os contatos profissionais, as visitas, as perguntas e os conhecimentos adquiridos já começaram a aparecer em outros trabalhos.


Este talvez seja um dos aspectos mais importantes das políticas públicas de mobilidade cultural.

Elas financiam uma viagem, mas seus resultados podem continuar circulando muito depois dela.

Uma experiência chega a outro território.

Outra retorna conosco.

E, nesse movimento, redes se formam, práticas são revistas e novas possibilidades aparecem.


Uma política pública que coloca a cultura em movimento


O FAC RS – Mobilidade integra as políticas de fomento da Secretaria da Cultura do Rio Grande do Sul e busca viabilizar a participação de agentes, profissionais e grupos culturais gaúchos em eventos e atividades realizados em outros estados e países.

No meu caso, essa política tornou possível levar para um encontro nacional experiências que foram construídas durante anos em municípios do Rio Grande do Sul.

Mas tornou possível também voltar com novos conhecimentos sobre patrimônio, museus, cultura popular, história e educação.


É nesse movimento que uma política de cultura ultrapassa o financiamento de uma ação individual.


Ela passa a produzir circulação.



Viajar também é uma forma de pesquisar.

Há conhecimentos que encontramos nos livros e há outros que somente aparecem quando mudamos de lugar.

Quando caminhamos por outra cidade, entramos em outro museu, ouvimos outra narrativa, encontramos pessoas que trabalham com problemas semelhantes aos nossos e percebemos que, apesar das distâncias, muitas perguntas nos aproximam.

Voltei do Maranhão trazendo muitas delas.

É exatamente isso que faz uma experiência profissional continuar viva: quando voltamos para casa diferentes o suficiente para olhar novamente para aquilo que já conhecíamos.






Memória e patrimônio também podem se transformar em projetos, publicações e experiências educativas.


A Sinapse Cultural desenvolve pesquisas, projetos de história local, educação patrimonial, publicações, materiais educativos, exposições e ações voltadas à valorização dos territórios e de suas referências culturais.


Conheça nossos projetos ou converse conosco sobre uma proposta para seu município, escola ou instituição.











 
 
 

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